• Luís Henrique Pedroso

VOLTA AO MUNDO EM 80 DIAS 4H: UMA QUARTA-FEIRA DIFERENTE

Ontem, terça-feira 9 de março de 2021, eu terminei de ler o clássico “Volta ao mundo em 80 dias”, de Júlio Verne. No ensino médio eu havia lido a versão em português, mas no final de fevereiro eu encontrei uma versão gratuita em inglês no Kindle e não resisti, comecei a ler. Nas últimas duas semanas, fui dormir relembrando as aventuras de Phileas Fogg, Passepartout, Aouda e do detive Fix. Especialmente neste momento em que viajar é uma realidade mais distante, me fez muito bem “passear” junto com os personagens pela África, pela Ásia, pelo jovem Estados Unidos e imaginar as longas travessias transoceânicas. Quando cheguei ao final do livro, logo pensei “eles conseguiram, a aposta foi ganha, mas quanto tempo será que demoraria para dar a volta ao mundo hoje em dia?” e fui dormir.

Acordei e logo abri um relatório enviado por um colega, falando sobre a necessidade do Reino Unido melhorar suas políticas e ações para combater o tráfico humano e proteger vítimas de trabalhos forçados e escravidão. Isso, em 2021! Segundo o Conselho Europeu de Direitos Humanos, no Reino Unido, diversos artigos da Convenção Europeia de Direitos Humanos foram violados. Atualmente, são estimadas 21milhões de pessoas em condições de trabalho análogas à escravidão. Globalmente, um grave problema e que extrapola fronteiras. Assim que terminei de ler o texto, logo veio o “estalo”: vou dar a volta ao mundo! E saí direto do Reino Unido para o norte da África.

No Egito, uma informação me chamou a atenção. Depois de quase uma década, há sinais de reaproximação entre Cairo e Ankara. Aliados históricos, a relação entre os dois países andou tensa desde que el-Sisi assumiu o governo egípcio. Essa reaproximação se torna interessante para frear as relações entre o Egito e a Grécia e o controle do Mediterrâneo, mas também em relação à Síria e Sudão, países próximos cuja instabilidade afeta a todos na região. Aproveitando enquanto eu estava na África, me atualizei sobre dados recém-publicados pelo Africa Center for Strategic Studies relacionando autocracias à instabilidade no continente. Três quartos dos países africanos em conflito (12 de 16) possuem governos autocráticos ou semi-autoritários. Nenhuma das democracias africanas está em conflito, por mais imperfeitas que estas possam ser.

Assim como Phileas Fogg e sua trupe, segui da África para a Ásia. Parei logo na Índia, afinal, tem vacina nossa parada lá. É o que afirma o atual Ministro Pazuello. Foi lá que Mr. Fogg e seu fiel escudeiro salvaram sua futura esposa, Auoda, e viajaram de elefante. Minha visita foi mais rápida, mas deu para ver que as expectativas por lá são mais animadoras do que por aqui: a OCDE divulgou nessa semana previsão de crescimento do PIB indiano em mais de 12% para o ano fiscal de 2021 e a campanha de vacinação segue em bom ritmo, mesmo no caótico sistema de saúde do país. A parada seguinte foi no preocupante Mianmar. As tensões seguem aumentando por lá e os militares no poder permanecem governando de forma dura, alheios às fracas sanções impostas por outros países até o momento. Crítico e oportuno, o momento é propício para ações mais sérias pró-democracia por parte de líderes globais, como os Estados Unidos, a China e o Japão, por exemplo. Na prática, ninguém quer se envolver muito porque suas atenções seguem nos seus próprios assuntos domésticos.

Meus esforços para chegar nos Estados Unidos não foram muitos, embora as fronteiras do país sigam fechadas para brasileiros! Virtualmente, no entanto, atravessei de oeste a leste passando por alguns portais de notícias e os think tanks que acompanho. Assunto não falta. Destaco dois, em especial: 1.9 trilhão de dólares devem ser injetados na economia dos EUA através do em pacote “American Rescue Plan”, recentemente aprovado pelo Senado; e o encontro agendado para a próxima semana entre o Secretário de Estado Antony Blinken com representantes do governo chinês. Bem, 1.9 trilhão de qualquer moeda anima qualquer um, sendo dólar, então, boas perspectivas para amenizar os inúmeros problemas trazidos pela pandemia de Trump coronavírus. E nesse espírito positivo, por que não pensar que o encontro de Blinken poderá gerar bons frutos para melhorar decisões e ações coletivas em nível global para o fortalecimento econômico, social e ambiental? Pensar e torcer não custa nada, embora pragmaticamente diversas questões sensíveis (divergências comerciais, direitos humanos, influência na região indo-pacífica, propriedade intelectual, segurança cibernética, para citar alguns!) tragam o mais idealista de volta para a realidade de 2021.

Assim como Phileas Fogg, cruzei o Atlântico e voltei para o meu ponto de partida, o Reino Unido. Propositalmente, minha “volta ao mundo” não passou pelo Brasil. O clima por estes lados está estranho, tem um vírus ceifando milhares de vidas por dia, jacarés andando por todo lado e reis desfilando suas togas nas mais diversas cortes da República Bolivariana. Outro motivo de ter deixado a “pátria amada” fora desse giro é porque o relógio marcava quase meio-dia e, tão rápida quanto o aumento do preço da gasolina, minha fome crescia e eu não parava de pensar em Lula pizza.Quando desembarquei de novo nas terras da Rainha Elizabeth, já disperso, me deparei com algo tão 1800 quanto o período da viagem de Fogg: preconceito racial. Os tabloides britânicos tinham várias notícias envolvendo a família real, o Príncipe Harry e Meghan Markle. Puxa.

Eu respondi o questionamento da noite anterior e dei uma volta ao mundo em pouco menos de 4h, passando por Europa, África, Ásia, América do Norte e voltando ao ponto de partida. Violações aos direitos humanos são observadas na Europa e em todos continentes. Desrespeito ao meio ambiente é uma realidade global. Autocracias e regimes autoritários assolam países na África e em qualquer lugar. Grana é importante, especialmente em graves momentos de crise. Que país não gostaria de poder aprovar um pacote de 1.9 trilhão de dólares? Mas grana apenas é a solução e basta? Claro que não! Phileas Fogg fez uso do seu poder financeiro para resolver boa parte dos seus problemas, mas sem a ajuda de Passepartout, Aouda, Fix e tantos outros, certamente não teria completado sua volta ao mundo conforme planejado. Os problemas atuais são majoritariamente transfronteiriços e tanto as causas quanto as soluções são e devem ser compartilhadas. Cooperação é um caminho, não para dar uma volta ao mundo, mas voltarmos a crer em um mundo melhor.




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