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  • Equipe EMPOWER

QUANDO AS ARMAS SILENCIAREM

Seguindo a mesma premissa do último texto compartilhado neste blog, o ponto de partida é reconhecer que a região, os envolvidos e o próprio conflito são complexos e merecem diferentes níveis de análise. Ainda, não me proponho a contar a história dos povos, das lutas, das crenças e tampouco fazer juízo de valor sobre motivos ou desculpas. O meu objetivo nesse comentário é analisar o cenário atual e lançar questionamentos para reflexão. Para isso, o segundo e importante passo é me localizar no espaço e no tempo: escrevo na sexta-feira, 27 de outubro de 2023. Quase três semanas após o ato terrorista do Hamas, após algumas retaliações imediatas de Israel, após visita do Presidente dos EUA à Israel, após muita inação da ONU, antes das tão anunciadas incursões terrestres à Gaza prometidas pelo governo israelense e quando o assunto já perdeu interesse das grandes mídias.


Encerrei o comentário anterior com a seguinte frase “É difícil conjecturar a escalada do conflito e os impactos para Israel, palestinos e outros atores, mas a probabilidade de assistirmos o fim do Hamas é alta.”. E é exatamente esse o objetivo do governo de Israel: rendição total do Hamas e implantar um novo regime de segurança na Faixa de Gaza sem a presença do Hamas. E aqui sustento meu argumento de que o fim do Hamas é muito provável, o que, no entanto, não altera em absolutamente nada a realidade de que outros, ou até mesmos novos, atores não-tradicionais (outros grupos militantes) irão agir tal qual o Hamas e influenciar esse novo regime de segurança que Israel almeja implantar. E isso me parece tão óbvio que chega a ser difícil de compreender a grande estratégia que guia as ações. Israel promete uma grande invasão terrestre e com potencial de destruição ainda mais avassalador, com potencial custo de vidas humanas altíssimo. Acredito que a ótica desse custo é um dos motivos da invasão terrestre ainda não ter acontecido com toda a magnitude apresentada por Israel. Seus parceiros sabem que a ótica, o simbolismo, de um massacre com perdas civis é algo que macularia a imagem de Israel e algumas lideranças da política externa dos EUA já alertaram os israelenses sobre isso.


A proporcionalidade das respostas israelenses já desperta posicionamentos distintos de nações, organizações e populações. Reafirmo, os ataques terroristas do dia 7 de outubro são condenados por quase unanimidade no globo, isso não está em questão. O que se discute muito atualmente está pautado em dois grandes assuntos: a resposta israelense e os custos humanitários e o que irá acontecer quando as armas silenciarem.


A resposta israelense contra um ator não-estatal é ainda mais complexa porque não é apenas uma luta armada contra o Hamas. Israel combate grupos não-estatais em diferentes frontes: em Gaza, em países vizinhos como no Líbano, Cisjordânia e Síria nas Nações Unidas e na busca por aliados, nas redes sociais e grandes mídias, mas principalmente contra outros grupos militantes extremistas e milícias da região (Hezbollah, Taleban, Jihad Islâmica, Al-Aqaeda, Estado Islâmico, houthis entre tantos outros). Preocupa muito o alto número de civis mortos nas incursões israelenses já realizadas, preocupa ainda mais o que pode vir com o avanço terrestre. Preocupa muito o que e como o mundo vê esses ataques e as narrativas apresentadas, pois no Sistema Internacional contemporâneo alianças são extremamente importantes, isolamento é extremamente prejudicial e as narrativas assumem papel relevante. Preocupa muito as repostas do Irã e os grupos financiados por esse Estado-nação. Preocupa muito a falta de habilidade das Nações Unidas e grandes potências mundiais em agir para garantir a segurança humana de civis envolvidos nesse conflito.


Quando as armas silenciarem, outros grandes problemas surgirão. Ou melhor, ressurgirão. O que acontecerá com o povo palestino? Qual o posicionamento dos países árabes quanto aos ataques israelenses contra palestinos? E as grandes potências, como se portarão? As tensões e os conflitos na região são milenares, é no mínimo imprudente pensar que esse momento de guerra total irá levar para soluções duradouras no pós-guerra ou quando o Hamas for “eliminado”. Os movimentos islamistas-jihadistas que mencionei acima são cultural, social, religiosa e politicamente inseridos em suas sociedades. Qualquer movimento ou tentativa precisará considerar esses fatos e compreender que o desenvolvimento de paz para a região é um esforço muito além de despejar dinheiro, forçar relocações, impor barreiras geográficas ou políticas e até mesmo ceder desejos de todas as partes. Ainda, todos os esforços precisarão lidar com Estados e atores não-estatais com poderes e deveres distintos e histórias relações complexas.


Me preocupa o custo humanitário hoje, mas me preocupa tanto quanto o futuro de quando as armas silenciarem.






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