• Vera Galante

O QUE ACONTECIA ENQUANTO SE OLHAVA PARA OUTRO LADO

Enquanto o Brasil parava para acompanhar os desdobramentos da CPI, a aliança do presidente Bolsonaro com o Centrão, as polêmicas sobre as urnas eletrônicas, os xingamentos a ministros do Supremo Tribunal Federal, a resposta do STF e a troca de ministros na esplanada, no dia 5 de agosto o Conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, liderava uma comitiva composta pelo diretor sênior para Assuntos do Hemisfério Ocidental do Conselho Nacional de Segurança, Juan Gonzalez; diretor sênior para Assuntos Cibernéticos, Amit Mital; diretor sênior para Tecnologia e Segurança Nacional, Tarun Chhabra; conselheira sênior, Ariana Berengaut; diretor para assuntos do Brasil e do Cone Sul, Andrew Sanders; e o oficial sênior do Departamento de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Ricardo Zúniga.


O que vieram fazer no Brasil? Basta dar uma olhadinha nos cargos que ocupam os membros da comitiva – o assunto principal era o leilão do 5G. Mas o dia de trabalho incluiu encontros com outros ministros, todos relacionados a segurança, reuniões com representantes de agências governamentais brasileiras e empresas de tecnologia envolvidas no desenvolvimento de futuras redes de telecomunicações. Discutiram o desenvolvimento e implementação da tecnologia Open RAN nas futuras redes 5G do Brasil, bem como a importância da segurança da informação como fator-chave para garantir o crescimento econômico das empresas brasileiras e garantir a prosperidade para a população.


A preocupação dos EUA com o uso dos produtos chineses, especialmente os da Huawei, para a implementação da rede 5G no Brasil é grande – eles alegam que estes produtos seriam usados para enviar informações sensíveis ou sigilosas ao governo da China. O ministro das comunicações, Fábio Faria, já disse que não convidará a Huawei para participar do leilão, mas também já disse que convidará. Resta saber o que o Presidente Bolsonaro vai decidir. Mas porque os EUA querem saber que equipamento o Brasil vai usar? Hoje todas as redes telefônicas são interligadas de alguma forma, e se o Brasil usar equipamento da Huawei, indiretamente haverá conexão com os equipamentos usados nos EUA expondo a segurança cibernética daquele país. Assim, segundo eles, os segredos de lá ficarão expostos aos chineses. A questão é mais complexa do que descrita aqui por uma leiga (me perdoem os entendidos), mas já dá para se ter uma ideia.


O fato inusitado foi o encontro que mantiveram com os membros do Consórcio dos Governadores da Amazônia para discutir planos e estratégias que os governadores têm para combater as mudanças climáticas, o desmatamento e a mineração ilegal, e para proteger os direitos indígenas. Não é usual uma missão de um governo conversar com governadores do outro país. Geralmente se encontram com seus pares – ministros se encontram com ministros, e assim por diante. Mas os governadores da Amazônia vieram a Brasília conversar com a delegação.


O porta-voz da Embaixada dos EUA disse que sobre “a questão das eleições brasileiras, a delegação afirmou ter grande confiança na capacidade das instituições brasileiras de realizar uma eleição livre e justa em 2022. Também ressaltou a importância de preservar a confiança no processo eleitoral que tem longa história de legitimidade no Brasil.” Bolsonaro reiterou sua opinião de que as eleições nos EUA foram fraudadas e que, segundo ele, seriam no Brasil também. Nos EUA esta hipótese já foi sepultada pelos tribunais de todos os estados, e no Brasil o próprio presidente admite que não tem provas de violação das urnas.


A visita de Jake Sullivan e dos demais altos funcionários do governo dos EUA é cheia de significados. Em primeiro lugar foi um gesto de Biden de querer trabalhar com o governo do Brasil, digamos um voto de confiança. Por outro lado, um gesto de desconfiança: eles não conversaram com o poder executivo (poder ao qual eles pertencem nos EUA), mas com os governadores de estados onde a situação do meio ambiente mais preocupa. Não há notícias da participação do ministro do Meio Ambiente em nenhuma dessas reuniões. O General Mourão (que lidera os esforços de preservação do meio ambiente na Amazônia) foi convidado para um almoço oferecido pelo ministro de Relações Exteriores, Embaixador Carlos Alberto França, mas não participou da reunião com os governadores. Este é um fato inédito e carregado de significados.


A agenda da delegação em Brasília foi bem cheia – se encontraram com representantes do executivo, com governadores de estados da Amazônia e com outros setores da sociedade. O resultado dessas reuniões servirá para balizar as relações dos dois países daqui para frente.


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