• Vera Galante

O BRASIL REAL E O BRASIL PARALELO

Hoje em dia é tudo relativo, ou líquido. Há pouco tempo fomos apresentados ao conceito de “verdade alternativa” alcunhado por Kellyanne Conway, ex-assessora do então presidente Donald Trump, um contumaz usuário de “verdades alternativas”.


No Brasil há uma outra realidade – também alternativa, ou paralela, como chamamos por aqui. Então existem gabinete paralelo, relatório paralelo e orçamento paralelo (ou, no caso, secreto). Um indivíduo pode e deve se aconselhar com o maior número de pessoas, pois “na multidão de conselhos está a segurança”, diz a Bíblia. Mas os conselhos não devem ser seletivos, ou seja, não podem ser só aqueles que confirmem a sua opinião. Em outras palavras, conselhos informam e não conformam às ideias preexistentes. Não é isso que vemos, infelizmente, no Brasil.


A ciência nos oferece dados críveis pois já foram testados várias vezes com diferentes variáveis. Normalmente as pesquisas são desenvolvidas em laboratórios isentos, porque fazem ciência pela ciência e partem de hipóteses e não de fatos. O cientista é, por princípio, um cético, por isso testa exaustivamente as hipóteses antes de apresentar um resultado positivo (ou negativo, conforme o caso). Aconteceu isso com a COVID-19 – houve pressa de se chegar a uma resposta à pandemia. Então os cientistas se debruçaram sobre o vírus, estudaram e apresentaram diversas vacinas e tratamentos eficazes contra ele. Há falhas, como sempre há, mas elas não desacreditam o resultado. Esses cientistas estão em todas as partes do mundo, inclusive no Brasil.


O caminho escolhido pelo poder executivo, entretanto, foi paralelo: os conselheiros mais próximos do presidente Bolsonaro eram pessoas que nunca tiveram nenhum contato com a ciência ou com a medicina (sim, há alguns médicos neste grupo). Mas este gabinete paralelo não incluía ministros de estado – nem o ministro da saúde. O Presidente escolheu seguir os conselhos deste grupo. Qual o problema de Jair Bolsonaro ouvir um grupo como este? Nenhum – ele pode se aconselhar com quem quiser, acreditar no que quiser, inclusive na eficácia da Cloroquina. O Presidente da República, contudo, tem a responsabilidade de liderar um país, de zelar pela saúde da população, portanto o dever é o de seguir o que diz a ciência. O Presidente Bolsonaro optou por tratamentos paralelos com ineficácia comprovada pela ciência.


Houve até um relatório paralelo elaborado por um auditor do Tribunal de Contas da União, ligado ao Congresso Nacional. Este auditor, não se sabe por que motivação, elaborou um relatório paralelo lançando dúvidas sobre o número real de mortes por COVID-19 no país. O TCU não tem atribuição de contar mortos por qualquer doença – a função é examinar como o dinheiro público é gasto. Só. Mas o auditor, próximo aos filhos do presidente Bolsonaro e, aparentemente apoiador da direção tomada pelo gabinete paralelo, resolveu por si só lançar um relatório paralelo com ares de documento oficial. Sobre ele pesam várias acusações e um afastamento temporário (por enquanto) de suas funções até que tudo seja apurado. Esse relatório só veio a público porque o presidente o citou a seus apoiadores na porta do Palácio da Alvorada (em tempo – não há provas sobre as afirmações do tal relatório e do presidente).


Recentemente o jornal O Estado de São Paulo publicou uma série de reportagens sobre o “orçamento secreto” ou paralelo que mostram claramente a compra de apoio político através das emendas de relator. O processo é até bem simples – o governo envia proposta de orçamento para ser votado, o relator inclui emendas que beneficiam este ou aquele partido, este ou aquele parlamentar que está indeciso, ou este ou aquele projeto que satisfaça o Poder Executivo. Tudo isso passa, e o executivo sanciona. Pronto – o que era o orçamento original com dinheiro previamente destinado a gastos previstos pelo governo, como na educação ou na saúde, por exemplo, tem que ser cortado para que possa cobrir gastos inesperados com estas emendas.


Mais um exemplo de que tudo é relativo – agora não na saúde. O presidente Bolsonaro quer nomear o ex-prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, para ser Embaixador na África do Sul. Ocorre, porém, que Crivella teve seu passaporte apreendido pela justiça quando foi preso em dezembro de 2020, e não o recuperou quando o Ministro Gilmar Mendes concedeu que deixasse a prisão em fevereiro de 2021 – por estar preso, Crivella não passou o cargo ao seu sucessor, Eduardo Paes. Crivella só espera recuperar o passaporte para ser efetivamente nomeado para aquela embaixada. Resta saber qual será a reação do Senado Federal, se Crivella efetivamente for nomeado pelo presidente – aprovará o seu nome?


Há remédio para tudo isso, felizmente. A informação é quem nos blinda de cairmos na realidade paralela porque nos ensina a confrontar as versões com os fatos e com a história. Nos tornamos céticos. Mas, como na ciência, o cético testa todas as hipóteses até chegar a um resultado seguro. Às vezes falhamos, mas na maior parte das vezes não.


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