• Luís Henrique Pedroso

O "BRASIL DO ZAP" DE BOLSONARO

Ao iniciar o discurso de abertura da 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o seu terceiro desde que assumiu a Presidência da República FEDERATIVA do Brasil, Jair Bolsonaro promete “mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões.”. E, para surpresa de alguns e delírio de outros, o discurso apresentado na ONU ingressa automaticamente na seleta lista de promessas cumpridas do Presidente Jair Bolsonaro. De fato, o que vimos e ouvimos é diferente daquilo publicado em jornais, revistas, pesquisas e relatórios, ou daquilo visto nos mais diversos canais de televisão mundo afora. O que vimos e ouvimos foi o retrato do Brasil compartilhado no WhatsApp. Vimos e ouvimos o “Brasil do Zap”.

No “Brasil do Zap”, não há casos concretos de corrupção, não estamos mais à beira do socialismo e recuperamos a credibilidade internacional. No “Brasil do Zap”, os recentes investimentos em infraestrutura resolveram, resolvem e resolverão históricos problemas de desigualdade social, acesso ao saneamento básico, alimentação e água. No “Brasil do Zap”, somos exemplo e referência na proteção do meio-ambiente. Nesse Brasil, “os recursos humanos e financeiros, destinados ao fortalecimento dos órgãos ambientais, foram dobrados, com vistas a zerar o desmatamento ilegal”. Aliás, é nesse Brasil que está o futuro do emprego verde! Mas não é só isso, foi nesse “Brasil do Zap” que o tratamento precoce triunfou, 90% da população adulta está vacinada e no último dia 7 vimos a “maior manifestação da nossa história”. Viva esse Brasil que apresenta um dos melhores desempenhos econômicos, é destino para investimentos e vive nos novos tempos!


Novos tempos das inverdades e pós-verdades. Novos tempos das fake news. Novos tempos de Zap.


É improvável que o mundo dê ouvidos aos contos de Bolsonaro sobre o “Brasil do Zap” apresentado na ONU, pois a realidade é muito diferente dessa descrita pelo Presidente e destacada acima. Verdade seja dita, a comunidade internacional dificilmente dará ouvidos a qualquer manifestação de qualquer Presidente de qualquer nação nesta Assembleia Geral. Essa é uma característica que pudemos observar nos últimos anos e que ainda se mantém presente em 2021: o desinteresse no multilateralismo. A eleição de Joe Biden até reascendeu as chamas dos foros internacionais e especulou-se maior participação multilateral para enfrentar problemas globais, como a pandemia de coronavírus ou o meio-ambiente. Na prática, pouco mudou até agora. A saída dos EUA do Afeganistão com limitada (ou quase nula) deliberação junto aos demais países da OTAN e a recém-divulgada aliança entre Estados Unidos, Austrália e Reino Unido, a Aukus, são exemplos de que fóruns multilaterais como a Assembleia Geral da ONU ainda mantém um status de importância simbólico, mas menos útil do que já foi. Então, pouco importa aos interlocutores internacionais se o Brasil apresentado por Bolsonaro é o Brasil real ou o “Brasil do Zap”.


Por fim, já era esperado que o discurso do Presidente seria muito mais voltado para o seu público cativo e interno do que para o exterior. O saldo desse discurso é de que o Presidente é capaz de cumprir suas promessas, sim, e de que seguiremos vendo e ouvindo o “Brasil do Zap” nas manifestações de Jair Bolsonaro durante o caminho para 2022. É esse o Brasil que queremos, é esse o Brasil que teremos. Ao menos, no imaginário do Presidente e no mundo virtual do WhatsApp.





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