• Rogério Schmitt

LULA PODE DESISTIR?

Já faz algum tempo que as redes sociais bolsonaristas e alguns políticos e influenciadores ligados ao governo vêm abertamente defendendo a tese de que a pré-candidatura presidencial de Lula não seria pra valer. Temendo uma derrota supostamente inevitável para Bolsonaro, o ex-presidente petista estaria fadado a desistir da disputa antes do início oficial da campanha eleitoral. O meu objetivo neste artigo é examinar seriamente os argumentos apresentados para justificar este cenário aparentemente inusitado (tendo em vista que Lula lidera todas as pesquisas de intenção de voto). Como veremos, alguns destes argumentos não têm muito fundamento. No entanto, há outros que não podem ser sumariamente descartados. Ainda que bastante improvável, um cenário eleitoral sem Lula não é algo totalmente impossível. Vale lembrar que, em circunstâncias bem distintas, algo parecido já aconteceu em 2018. No contexto da Operação Lava Jato, Lula havia sido encarcerado em Curitiba em abril daquele ano. No mês de agosto, mesmo na prisão, Lula seria escolhido candidato a presidente pelo PT durante a convenção nacional da sigla e, na sequência, registrado no TSE. O indeferimento da candidatura do ex-presidente pelo plenário do TSE ocorreria somente em 1º de setembro. E foi somente em 25 de setembro (restando menos de duas semanas para o primeiro turno) que o TSE deferiria a substituição de Lula por Fernando Haddad na chapa presidencial petista. Durante todo o período, Lula também liderava as pesquisas de intenção de voto. Comecemos então listando alguns argumentos bem fraquinhos apresentados pelos bolsonaristas para justificar a possível desistência de Lula. Um deles é o de que durante a recente janela partidária a bancada do PT aumentou em somente 3 deputados federais, contra um crescimento de 32 cadeiras da bancada do PL de Jair Bolsonaro. Outro argumento é o de que os apoios já recebidos por Lula têm se restringido até agora aos partidos de esquerda. Por fim, se costuma citar também o forte sentimento de rejeição ao PT. As mudanças de partido no Congresso não têm a ver com as expectativas dos parlamentares sobre o resultado da eleição presidencial, e sim com a sua própria sobrevivência eleitoral. Por outro lado, a escolha do ex-governador Geraldo Alckmin para compor a chapa presidencial com Lula foi um nítido movimento do petista na direção do centro. O ex-presidente também é apoiado por lideranças políticas de siglas como o MDB e o PSD. Finalmente, a forte rejeição a Lula (37% do eleitorado, segundo o Datafolha de março) é amplamente superada pela rejeição ao próprio Bolsonaro (55% na mesma pesquisa). Mas o principal argumento dos defensores da tese da desistência de Lula é o recente crescimento contínuo das intenções de voto em Bolsonaro. De fato, na média de todas as pesquisas estimuladas, Bolsonaro tinha 24,6% das intenções de voto em janeiro. Agora, em meados de abril, ele já aparece com 32,2% das intenções de voto. Um aumento de quase 8 pontos percentuais em pouco mais de 3 meses. Segundo os bolsonaristas mais otimistas, Bolsonaro ultrapassaria Lula nas pesquisas já a partir de junho. Este argumento tem, no entanto, um grave calcanhar de Aquiles. As intenções de voto em Lula têm permanecido estáveis desde o início do ano. Novamente na média das pesquisas, o petista tinha 43,2% do voto estimulado em janeiro, e está com 42,3% agora em abril. Ao contrário do que supõem os bolsonaristas, a candidatura de Lula não apresenta sinais de derretimento. O crescimento de Bolsonaro tem ocorrido em detrimento dos candidatos da terceira via, e não do líder das pesquisas. Naturalmente, não há nenhuma razão que necessariamente impeça que os números de Lula também comecem a seguir uma trajetória de queda nos próximos meses. O instituto PoderData acaba, por exemplo, de divulgar uma pesquisa na qual a diferença entre Lula e Bolsonaro é de apenas 5 pontos percentuais. Mas a boa análise de cenários eleitorais precisa levar em conta não uma pesquisa isolada, e sim o conjunto de todas elas. Para que a desistência de Lula pareça minimamente plausível, Bolsonaro teria que, até o final do segundo trimestre, ultrapassar sistematicamente o petista nas intenções de voto do primeiro e do segundo turno. É algo que até teoricamente possível. Mas não parece ser o cenário mais provável, tendo em vista que os números de popularidade do atual governo deixam muito a desejar. No PoderData do final de março, por exemplo, o trabalho do presidente Bolsonaro era avaliado negativamente por 50% do eleitorado, enquanto que 55% também declararam desaprovar o seu governo. Estes números são uma espécie de teto, que limitam objetivamente as possibilidades de crescimento das intenções de voto em Bolsonaro. Não podemos nos esquecer, finalmente, que desistências voluntárias não parecem integrar o perfil psicológico do ex-presidente Lula. O petista foi derrotado em 3 eleições presidenciais consecutivas (1989, 1994 e 1998) antes de se eleger pela primeira vez para o Palácio do Planalto, em 2002.



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