• Luís Henrique Pedroso

A 5G AINDA NEM CHEGOU, JÁ É COISA DO PASSADO E PRECISAMOS PENSAR O FUTURO

Aos que pacientemente seguem lendo meus textos aqui para o blog da Empower, sinto que devo uma explicação: não é coincidência a recorrência de certos temas, tais quais meio-ambiente, 5G, paradiplomacia e política externa. São assuntos direta ou indiretamente ligados ao meu principal interesse de pesquisa: defesa e segurança internacional. São assuntos que fazem parte do conteúdo que mais consumo, então é natural que apareçam com mais frequência. E é exatamente motivado por um relatório recém-publicado pelo Comitê de Ciência e Tecnologia da House of Commons do Reino Unido (a Câmara baixa do Parlamento britânico) que transmito o alerta abaixo.


A discussão sobre a tecnologia 5G no Brasil deve ser muito mais profunda e considerar tantas outras variáveis do que atualmente vemos. Infelizmente, sei que não será. Mesmo assim, registro o meu alerta na vã tentativa de promover uma necessária discussão e reflexão.


A escolha da 5G no Brasil, e no mundo, não se trata apenas de permitir ou bloquear o avanço da influência de Beijing no mundo. Assim como a gigante chinesa Huawei já está inserida no mercado internacional tanto quanto a Apple, a Microsoft ou a Nokia, a China já é um player com gigantesca influência global. O caminho da ascensão chinesa está muito bem pavimentado e definitivamente não será o Brasil o ator determinante do sucesso ou insucesso da empreitada da Huawei pelo domínio da infraestrutura de telecomunicação. O Brasil deve olhar para o seu próprio umbigo e analisar as vantagens e desvantagens para o país ao assumir posição x ou y. E aqui o alerta, essa análise precisa ir muito além do 5G como o encaramos hoje!


O Estado brasileiro precisa de planos e programas claros sobre tecnologias, redes e estruturas críticas. E isso inclui, invariavelmente, a internet das coisas, nanotecnologia, inteligência artificial, tecnologia quântica e biologia sintética, por exemplo. É preciso pensar estrategicamente o futuro do Brasil quanto às possibilidades de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias, produtos, patentes. Sobre a inserção brasileira em redes de pesquisa internacional e em acordos de cooperação técnico-científica e segurança cibernética. É necessário nos anteciparmos e projetarmos cenários, pensarmos estrategicamente o desenvolvimento tecnológico e geopolítico nacional e internacional e de tomarmos decisões e elaborarmos políticas públicas considerando a intersecção da tecnologia com a geopolítica.


Olhar para o próprio umbigo é, justamente, pensar mais sobre a inserção do Brasil nesse jogo geopolítico que vai além de quem implantará a infraestrutura de 5G no país. Em outras palavras, a 5G que ainda nem chegou já é coisa do passado e precisamos pensar o futuro. O quero dizer com isso é que o Brasil não se preparou para implantação do 5G e agora é mero espectador em uma “guerra fria” entre os Estados Unidos e a China. Grande parte da nossa infraestrutura de 4G (desde antenas até backbones) é da Huawey e pode ser adaptada para receber a 5G, reduzindo significantemente os custos diretos, mas talvez aumentando os cursos marginais políticos e comerciais com os EUA e a União Europeia, por exemplo. O inverso também é verdadeiro, com EUA e aliados exercendo forte pressão política e comercial que vão do meio-ambiente até acordos de cooperação militar. Sem admitirem de forma escancarada, são essas as conclusões do relatório publicado pelo Comitê do parlamento britânico. A passividade em pensar estratégica e antecipadamente sobre a rede 5G deve servir de lição para o Reino Unido urgentemente pensar outras tecnologias críticas e emergenciais a serem desenvolvidas no futuro próximo.


Pensar o 5G no Brasil é mais do que nos posicionarmos entre Estados Unidos ou China, é mais do que promovermos um leilão e investirmos recursos públicos para darmos início a uma integração e automação visando indústrias e cidades totalmente conectadas, mas também é uma oportunidade de pensarmos e refletirmos sobre o nosso papel nos próximos saltos tecnológicos. Ao escrever eu mesmo tenho a consciência de que essas palavras soam mais como desejo e utopia do que um alerta prático ou efetivo motor de mudança. Mas, se até voluntário da ONU eu já fui, deixo registrada a leitura do relatório supramencionado, as conclusões que dele podem ser tiradas e a esperança de que pensemos uma estratégia que mitigue riscos e favoreça o desenvolvimento tecnológico no Brasil.




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