• Vera Galante

VAMOS FALAR DE PLANEJAMENTO


Tive uma chefe que sempre que saia para qualquer evento onde provavelmente lhe passariam a palavra, me chamava para “ensaiarmos o improviso”. No início estranhei porque ensaiar o improviso me parecia um contrassenso. Mas não é (aprendi mais uma)! O princípio básico de um de boa prevenção de crise é analisar cenários prováveis, de probabilidade média e improváveis com igual rigor. Daí se traça uma estratégia para posteriormente, se a crise se instalar, gerenciar e mitigar seus efeitos. Básico.


No Brasil vivemos uma pandemia oficialmente desde março de 2020 – portanto há um ano. Desde o princípio o que não falta é contradição entre o que dizem as autoridades de saúde (no caso as que têm competência para gerenciar a crise que se instalou no país) e as autoridades governamentais. As primeiras recomendam distanciamento social e uso de máscaras desde o primeiro dia oficial da pandemia. Recomendaram fechamento do comércio, evitar aglomeração e hábitos de higiene mais rigorosos. Isso em todo o mundo, com o devido respaldo da Organização Mundial da Saúde.


Dois presidentes se levantaram contra essas orientações – Donald Trump, dos EUA, e Jair Bolsonaro, do Brasil. Ambos negaram a seriedade da pandemia e não respaldaram as orientações científicas. Pronto – o vírus aproveitou e se espalhou. Ele é oportunista. Os números de infectados e mortos começou a subir vertiginosamente e ambos os presidentes insistiam em diminuir a seriedade da situação sanitária de seus países. Os Estados Unidos se tornaram rapidamente no campeão de mortes por COVID-19. O Brasil seguiu de perto se tornando o segundo país em número de mortes. Trump não foi reeleito e Biden, seu sucessor, acaba de implementar um plano agressivo de vacinação para conter o vírus, com a promessa de vacinar toda a população até o final de maio deste ano. A ciência venceu.


No Brasil a máxima de “ensaiar o improviso” falhou – é só improviso mesmo, sem ensaio algum. Em tese a centralização das iniciativas de vacinação e distribuição de medicamentos muito eficientes do Ministério da Saúde, que aliás é reconhecido mundialmente, favoreceria um programa eficiente e abrangente de vacinação no país. Já houve campanhas de vacinação infantil onde se vacinou 17 milhões (sim, isso mesmo) de crianças em um só dia! Isso é eficiência. A diferença: havia um plano bem elaborado com pessoal preparado, transporte para atingir todas as crianças em idade de serem vacinadas e, mais importante, havia vacinas e seringas! Vejam a diferença que um bom planejamento faz!


Com a negação da pandemia desde o início, o Ministério da Saúde não foi acionado para o combate à pandemia, mas para o tal tratamento precoce imaginado pelo presidente Bolsonaro, investindo milhões na compra de hidroxi-cloroquina. Até o laboratório do Exército do Brasil parou o que estava fazendo para fabricar cloroquina. Só que não adiantou nada. A população continuou a ser infectada e o tal grupo de risco – idosos e pessoas com comorbidades – agora se expandiu e todos são considerados de risco. E o vírus oportunista continua a atacar e até sofreu mutações. Cada dia mais perigoso.


Enquanto o governo federal e os governos estaduais brigam por causa dos procedimentos a serem adotados durante a pandemia – estados decretam lockdown, fechamento parcial, medidas restritivas várias e o governo federal os acusa de sabotarem a economia e o progresso do país – o STF e o Legislativo fazem o que podem para mediar o imbróglio.


Internacionalmente o Brasil segue perdendo prestígio devido a suas posições cada vez mais isoladas e radicais no enfrentamento da pandemia. Economicamente o país é visto com muita desconfiança pelos investidores que antes eram pródigos em investimentos no país – hoje vemos multinacionais arrumando as malas e deixando o país em números jamais vistos. Sim, a economia vai mal, muito mal, e tende a piorar. A economia não anda sozinha – não adiantam medidas econômicas acertadas, se o sinal político não é confiável. No frigir dos ovos, o que conta é a política – é ela que confere volatilidade ou estabilidade a qualquer medida governamental. Hoje o cenário é de incerteza.


A recente troca de comando da Petrobrás, a transição no Banco do Brasil – todas pelo mesmo motivo – expõe a falta de solidez política do país, e a imprevisibilidade política é fatal. Aí todos se aproveitam, especialmente o coronavírus, que continua com liberdade total para andar livremente pelo país porque a vacinação está sendo feita a passo de cágado porque não houve planejamento adequado e o Brasil não tem vacinas suficientes para vacinar a população. Triste cenário.


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