• Rogério Schmitt

SERÁ QUE O FUTEBOL DÁ VOTO?

Começou mais uma Copa América de futebol masculino. O evento foi transferido às pressas para o Brasil após as desistências da Colômbia e da Argentina, os países originalmente designados para sediar a mais antiga competição de seleções do planeta.


O apoio do governo federal à realização da Copa América no Brasil em plena pandemia do novo coronavírus suscitou todo um debate ideológico a respeito de suas possíveis consequências político-eleitorais.


Muitos apoiadores do presidente Bolsonaro encamparam a tese de que o evento esportivo pode aumentar a popularidade do governo, especialmente em caso de vitória da seleção brasileira. Ao contrário, muitos críticos de Bolsonaro alegaram se tratar de um gesto irresponsável, que dificulta o controle da pandemia e que acabará por derrubar ainda mais o apoio ao governo nas pesquisas.


Mas qual seria a real correlação entre, por um lado, a participação do Brasil em grandes eventos futebolísticos e, por outro lado, o curso da conjuntura política? Para responder, começarei contando uma história engraçada.


Há alguns anos, participei de um programa de entrevistas na TV em plena quarta-feira de cinzas. Era tudo ao vivo. Fui surpreendido por uma pergunta inesperada. A apresentadora queria saber se o resultado do desfile das escolas de samba no RJ e em SP poderia influenciar as chances de aprovação de um projeto apoiado pelo governo da época. Minha resposta foi improvisada, porém certeira: "quantos votos a Mangueira tem no Congresso?".


De fato, como veremos, não há correlação alguma entre o desempenho do Brasil em Copas e o resultado das eleições presidenciais. Ao contrário do que muitos podem supor, as derrotas da seleção brasileira em grandes eventos esportivos não favorecem a vitória de candidatos da oposição, assim como as vitórias do escrete canarinho não resultam automaticamente na reeleição dos governantes de plantão.


Comecemos pela Copa do Mundo. As últimas sete Copas, entre 1994 e 2018, foram realizadas alguns meses antes das eleições presidenciais brasileiras. Nas duas Copas vencidas pelo Brasil, o governo foi vitorioso só em uma (1994), enquanto a oposição foi vitoriosa na outra (2002). Do mesmo modo, nas cinco Copas em que o Brasil foi derrotado, os candidatos do governo foram vitoriosos em quatro. Apenas em 2018 a eliminação precoce da seleção brasileira coincidiu com a vitória de um candidato de oposição nas eleições.


Portanto, a correlação esperada pelo senso comum foi observada apenas em menos de 1/3 (2 vezes em 7) dos anos em que houve coincidência entre Copa do Mundo e eleições presidenciais.


Seria diferente com a Copa América? Para quem não conhece as estatísticas: das dez edições do torneio sul-americano realizadas de 1995 em diante, o escrete canarinho foi vitorioso em cinco oportunidades, tendo sido derrotado em outras cinco.


É fato que os candidatos apoiados pelo governo venceram 3 das 4 eleições presidenciais realizadas nos anos que se seguiram à conquista da Copa América pelo Brasil (os torneios de 2019 e de 2021 ainda não podem ser contabilizados). Mas também é verdade que a situação ainda conseguiu ser vitoriosa em 2 das 5 eleições realizadas após derrotas da seleção na Copa América.

Mas aqui a comparação não é tão automática como no caso da Copa do Mundo. No período em questão, nunca houve coincidência precisa entre os anos em que foi realizada a Copa América e o calendário eleitoral brasileiro. Os intervalos entre uma e outra podem chegar a três anos. Além disso, por se tratar de um torneio com periodicidade inferior a quatro anos, há casos em que duas edições diferentes da competição antecedem a mesma eleição presidencial.


Em resumo, não há correlação relevante entre futebol e voto. No caso da Copa do Mundo, a correlação é majoritariamente contrária ao esperado pelo senso comum. E no caso da Copa América, há somente uma correlação espúria, devido às diferenças entre as duas séries temporais.


Fica então a dica para todos que, assim como eu, gostam tanto de política como de futebol. Aconteça o que acontecer com a seleção brasileira nesta Copa América que está sendo disputada no Brasil (e tomara que sejamos novamente campeões!), este certamente não será um fator decisivo sobre as chances de vitória do governo ou da oposição na eleição presidencial do ano que vem.



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