• Luís Henrique Pedroso

#NADAMUDARÁ: A ELEIÇÃO NA BOLÍVIA E A PAUTA DO LÍTIO

Há certo consenso de que o lítio deverá assumir cada vez mais um papel relevante na economia do futuro. Afinal, ele é um elemento central para a composição de baterias, e estas energizam desde os smartphones até carros. Indústria 4.0, cidades inteligentes, rede 5G, e tantas outras palavras, expressões, ideias, conceitos e projetos industriais e de automação utilizam pesadamente esta fonte energética. Argentina, Chile e Bolívia possuem este minério em abundância e formam o que popularmente é chamado de “triângulo de lítio”. Até aqui, nada novo, mas no último domingo tivemos eleições presidenciais na Bolívia e o lítio ganhou as manchetes, inundou o Twitter e me fez pensar e escrever sobre os impactos estratégicos da vitória – ainda virtual - de Luis Arce. Arce é ex-Ministro da Economia de Evo Morales e que agora recoloca o Movimento pelo Socialismo (MAS) no poder. Seu plano de governo se assemelha muito ao de Morales, com forte defesa das estatais bolivianas e proteção dos recursos naturais do país. Entre eles, o lítio. Os argumentos de Arce e Morales são claros: a Bolívia deve explorar, refinar e agregar valor ao minério, não apenas explorar e vender o minério bruto. Cabe, segundo eles, à estatal Yacimientos de Litio Boliviano (YLB) a missão de gerar mais riquezas para a Bolívia com o minério de moto a permitir o desenvolvimento econômico e social do país. No discurso, tudo lindo. Na prática, a missão se torna mais complicada por pressões internas e externas. Um Presidente só não faz verão. Nem todos grupos políticos pensam como o MAS, nem todos grupos empresariais e industriais fundamentam suas ações em políticas socialistas ou protecionistas, e talvez o principal problema – a inexistência de uma política de industrialização de Estado. Aliás, mal de todos os países sul-americanos.

As transformações geopolíticas contemporâneas também podem ser observadas quanto ao uso de lítio. O eixo Ásia-Pacífico, em especial China, possui mais registros, patentes e produz mais baterias do que o eixo euro-atlântico. O fluxo de financiamento e pesquisas para o desenvolvimento de baterias, compostos elétro-eletrônicos e eletromobilidade, por exemplo, é um espelho disso, com EUA, Brasil, Argentina, Chile e Bolívia ficando muito atrás. Voltemos ao foco do texto. Does três países do “triângulo de lítio”, a Bolívia – de Morales e agora de Arce – é a que mais pensou em termos de política públicas sobre o potencial do lítio. Não há, na Argentina e no Chile, projetos reais para ampliar as cadeias globais de valor do mineral. É a lógica do explora, exporta. A pauta eleitoral de Luis Arce foi justamente para frear essa dinâmica e impulsionar a incipiente política industrializadora para baterias na Bolívia.

As ideias de Morales e Arce condizem com suas formações políticas, mas carecem de conexão com a realidade global. A Bolívia não tem um parceiro forte para financiar politicamente e financeiramente o desenvolvimento dessa indústria boliviana. A exportação do lítio boliviano não é suficiente para financiar tal empreitada, afinal, a China, principal produtora de baterias de lítio, compra seus insumos da Austrália, Argentina e Chile mais do que da Bolívia. Os EUA não olham para a América do Sul (exceção vez que outra da Venezuela). Alemanha e outros europeus ainda não se entendem muito bem, de forma coordenada, sobre as políticas de investimento, industrialização e comércio EU-mundo, especialmente em um momento de tensões comerciais entre EUA e China. Nesse sentido, não me parece que a Bolívia de Luis Arce superará suas limitações estruturais e socioprodutivas tão cedo.

Por fim, estrategicamente, a virtual vitória de Arce deve mudar pouco na conjuntura política regional relacionada o lítio. A Bolívia seguirá como parte de uma periferia exportadora de recursos naturais, o Brasil seguirá promovendo o diálogo sobre o assunto sem qualquer efeito prático para o desenvolvimento econômico do país fruto da exploração ou transformação de lítio, e o Elon Musk seguirá debochando no Twiiter. Ao invés de #ChoraElonMusk, o mais apropriado talvez fosse um #NadaMudará.





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