• Vera Galante

ELEIÇÕES NOS EUA: A CAMPANHA ESTÁ ESQUENTANDO!


Literalmente! Os incêndios que devastam a Costa Oeste dos EUA, especialmente o estado da Califórnia, trouxeram o aquecimento global para o centro da campanha eleitoral. De um lado Trump, que sempre negou (e ainda nega) o aquecimento global, coloca a culpa no mal manejo das florestas como causa dos incêndios. Por outro, Biden, que sempre abordou o tema do meio-ambiente de maneira geral, tem que fazer referência específica ao aquecimento global. Trump não tem uma estratégia de proteção ao meio ambiente. Biden foi forçado a aceitar o “green new deal” proposto por Bernie Sanders e apoiado por Kamala Haris que está um pouco mais à esquerda do que ele gostaria. O “Green New Deal”, de forma muito simples, é uma proposta de redução da desigualdade econômica através do crescimento sustentável, ou o New Deal de Franklin Delano Roosevelt aplicado à realidade climática do Século XXI.

Uma discussão mais aprofundada sobre o meio ambiente não estava nos planos de nenhum dos dois candidatos, que estavam confortáveis falando genericamente sobre ele. Trump retirou os EUA do acordo de Paris, sempre alegando que não havia evidências científicas de que realmente o aquecimento global fosse real. Essa semana, em visita relâmpago à Califórnia, Trump voltou a afirmar que a ciência não sabe tudo, e que não existe aquecimento global. Quem visitou a Califórnia não foi o Trump candidato (permaneceu somente duas horas no estado), mas Trump presidente. A Califórnia não vota em um candidato republicano desde 1988. Biden tem folgada maioria no estado por ser democrata e por ter escolhido Kamala Harris, senadora pela Califórnia. Trump presidente já havia liberado recursos federais para os estados mais afetados, já desde o início da tragédia.  Seria perda de tempo Trump candidato fazer campanha no estado.

O aquecimento global é só um dos temas que deverão ser abordados nos debates que se iniciarão no dia 29/9. [1] Os temas já estão bem delineados: o combate ao novo coronavírus, a retomada do crescimento da economia, justiça racial e étnica e o caráter dos candidatos. Trump é três anos mais novo que Biden, e insiste que o oponente está muito velho para ser presidente e insinua que não está bem mentalmente. Biden alega que Trump mente de acordo com interesses pessoais. Vai ser interessante assistir – os estilos de ambos são muito diferentes: Trump ataca mais e Biden se defende mais, o que não o favorece, pois o eleitorado tende a ver nisso sinal de fraqueza.

Política externa raramente tem peso relevante em campanhas, mas Trump aposta que os recentes acordos assinados entre Israel, Bahreim e Emirados Árabes conte a seu favor. Biden promete retomar e fortalecer alianças com antigos aliados, voltando ao Acordo de Paris, fortalecendo a OTAN e dando prioridade comercial aos países ocidentais. As relações com a China são uma pedra no sapato dos dois candidatos. Não se pode desprezar o gigantismo chinês, e nem abrir mão das importantes importações chinesas; também há que se levar em consideração os métodos comerciais daquele país, que não coadunam com os princípios americanos. Esta é uma equação dificílima de fechar e nenhum dos dois tem a bala de prata. Espera-se que a maneira como a China é tratada será o tema, deixando de lado a substância do problema – a extrema dependência que os EUA têm dos produtos chineses. A China é importante, mas os eleitores estão mais preocupados em como Israel será tratado pela política externa do ocupante da Casa Branca do que com a China ou o acordo de Paris. Por isso a importância da assinatura dos acordos na Casa Branca. O simbolismo fala por si.

Enquanto a política externa é importante, há legados que um presidente deixa que vão muito além do período de 4 anos do mandato. Um deles é a nomeação de juízes da Suprema Corte dos EUA. Possivelmente o próximo presidente nomeará dois juízes: um para suceder Ruth Bader Ginsburg (RBG), que está doente, e Stephen Breyer, que fez 81 anos recentemente. O cargo de juiz da suprema corte é vitalício e não há evidências, por enquanto, que Breyer pedirá aposentadoria. Trump já nomeou dois juízes e poderá nomear mais dois, o que tornará a Suprema Corte extremamente conservadora. Para agradar aos conservadores, Trump já soltou uma lista de 11 possíveis candidatos à próxima vaga – todos conservadores que frontalmente se opõem ao aborto e outras garantias sociais. Não se sabe quem serão os candidatos de Biden, mas é certo que Kamala Harris terá papel fundamental nas nomeações, o que garantirá juízes com viés mais liberal, ou mais afinados com as causas sociais.

It’s the economy, stupid – a célebre frase cunhada por James Carville em 1992 e usada à exaustão pelo candidato Bill Clinton em sua campanha, também tem sido o mote desta. A pandemia causada pelo novo coronavírus abalou as economias de todos os países onde ela foi significativa, e os Estados Unidos não foram exceção. Trump mostrava índices animadores de crescimento da economia em vários setores até a chegada da Covid-19. O mercado sentiu, e agora ele alega que tem a fórmula para a rápida retomada do crescimento. Biden, por sua vez, também diz ter a fórmula para a retomada do crescimento, só que nela seriam incluídos todos os socialmente marginalizados, como os negros, as mulheres, as minorias étnicas e ainda por cima fortaleceria a economia sustentável, incentivando fontes alternativas de energia, substituição de combustíveis fósseis, reduzindo emissão de CO2. 

Os discursos são fortes de ambos os lados, resta agora ver para onde vai pender o pêndulo. Trump tem preferência nos estados agrícolas, cujas populações têm, via de regra, escolaridade mais baixa – e é para eles que ele fala em seus comícios. Biden tem grande apelo nos estados onde a escolaridade é mais alta, nas elites (com o perdão da má palavra), e tenta atrair os eleitores dos estados onde Trump ainda tem maioria, e os eleitores nos estados onde a tendência ainda não está definida: os chamados “swing states”.

Essa tem sido uma campanha interessante de acompanhar e, agora que está na reta final, faltando menos de 2 meses para as eleições gerais, ela ganha corpo e fôlego.



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