• Luís Henrique Pedroso

DE OLHO NO EQUADOR E NO PERU, AS BOLAS DA VEZ NA POLÍTICA SUL-AMERICANA.

No próximo final de semana, equatorianos e peruanos irão às urnas para decidirem sobre o seu futuro. Especificamente, no dia 11 de abril acontecerá o segundo turno das eleições presidenciais no Equador e as eleições gerais no Peru. Os atuais cenários políticos no Equador e no Peru evidenciam uma característica observada em toda América do Sul nos últimos anos: um forte contexto de polarização. De forma mais evidente, desde 2016 testemunhamos tal polarização no Brasil, Argentina, Chile e Bolívia, em recentes manifestações populares e eleições.


Nos dois países o panorama geral das eleições é relativamente complexo, pois há uma forte desconfiança na classe política e forte desinteresse popular nas eleições. Aliás, desconfiança e desinteresse compartilhados pela maioria da população sul-americana. Em linhas gerais, observaremos no próximo domingo a avaliação das tradicionais forças políticas nos dois países andinos que, indireta e diretamente, poderão impactar os rumos da América do Sul nos próximos anos. Depois das eleições de Alberto Fernández na Argentina e Luis Arce na Bolívia, a esquerda avançará em outros dois países ou este recente avanço será contido? E o papel das forças indígenas, qual será?


Já no primeiro turno, realizado em 7 de fevereiro, as expectativas eram de um movimento de polarização entre os movimentos do “correísmo” e do “anti-correísmo”, em referência ao ex-Presidente Rafael Correa. No entanto, o povo quebrou essa lógica e o movimento indigenista, liderado por Yaku Pérez, abocanhou quase 20% do total de votos e colocou em xeque as tradicionais agendas apresentadas por Adrés Arauz e Guillermo Lasso. Há quem, entre eles eu, diga que o recado foi dado pelo povo: “não está bom isso daí, tá ok!?”. E, honestamente, não é complicado entender os motivos dessa manifestação de descontentamento com os tradicionais centros de poder no país. O Equador sofre há tempos, os povos indígenas mais ainda.


Recentemente o professor e sociólogo Renato de Oliveira, falando especificamente dos povos indígenas sul-americanos, destacou a condição de marginalidade política destes. No Equador não é diferente. Os indígenas historicamente compõem um movimento de resistência social à margem do sistema político. Os resultados de Yaku Pérez no primeiro turno escancaram o crescimento do movimento Pachakutik e o transformam em um elemento capaz de exercer fortes pressões políticas ao longo do próximo mandato. Há expectativas sobre o posicionamento do eleitorado indígena no pleito, em especial após a declaração oficial do movimento de não apoiar nenhum dos dois candidatos à Presidência neste segundo turno. Similarmente, será interessante observar a conduta do Pachakutik na composição de alianças do novo governo eleito.


Independente do vitorioso nas eleições presidenciais, será importantíssimo observarmos e analisarmos a correlação de forças no Equador pós-eleição com a participação mais ativa e forte do movimento Pachakutik. Vale lembrar dois momentos relevantes para a América do Sul nos últimos anos e que de forma direta e indireta impactam a atual eleição no Equador e o futuro das relações regionais. O primeiro é um olhar para o próprio Equador, que em 2019 foi palco de manifestações populares que paralisaram o país por quase duas semanas em resposta ao fim de uma política de quatro décadas de subsídios aos combustíveis no país. O segundo é a eleição de Luis Arce, na Bolívia, recolocando o MAS no poder. Nos dois acontecimentos, a participação dos marginalizados social e politicamente povos indígenas foi destaque e merece atenção.


No Peru, a disputa entre Yonhy Lescano (do partido de centro-direita Ação Popular) e Verónika Mendoza (do Juntos pelo Peru, uma coalizão de esquerda) está acirrada. Os recentes escândalos de corrupção, que teve até a prisão preventiva da também candidata Keiko Fujimori, deixaram a população descrente na classe política e desinteressada. Os problemas estruturais do país são diversos e as soluções propostas pelos quatro principais candidatos não fogem às tradicionais cartilhas da direita e da esquerda sul-americanas. Não perceberam, estes, que em 2021 é preciso muito mais porque a pandemia de coronavírus assola a população e a fraca economia peruana marginaliza ainda mais as populações mais vulneráveis. O desinteresse ocupa o primeiro lugar, apontam recentes pesquisas de intenção de voto e não fosse o voto obrigatório, veríamos esse recado nas urnas.


Tanto no Equador quando no Peru, observaremos uma dispersão das forças políticas nacionais, tanto no âmbito do executivo quanto do legislativo. As políticas de alianças necessárias para governabilidade dos países merecem atenção para compreensão do futuro do continente. No Equador, o próximo Presidente não encontrará uma força majoritária na Assembleia Nacional e o crescimento do movimento indígena tende a exercer pressões por reformas de inclusão social. No Peru, as eleições para o Congresso também acontecerão no domingo e a tendência é de divisão sem uma ampla maioria de qualquer lado. Os resultados das eleições nestes dois países poderão alterar a balança de poderes e interesses dos países sul-americanos e influenciar as dinâmicas regionais pelos próximos anos. É bom ficarmos de olho no que está acontecendo em nosso entorno, mesmo sabendo que a diplomacia brasileira não sabe mais o que é América do Sul.


Início do século XX ... Rafael Corrêa emergência de novas esquerdas na América Latina.




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