• Rogério Schmitt

BOLSONARISMO NÃO EMPLACOU, MAS BOLSONARO ESTÁ VIVO

Há uma frase de efeito, muito conhecida no meio político dos Estados Unidos, que diz que "all politics is local" (ou "toda política é local"). Em linhas gerais, trata-se do princípio de que o êxito dos candidatos a cargos eletivos depende de sua capacidade de responder às preocupações mais imediatas dos eleitores, especialmente aquelas que dizem respeito ao cotidiano da vida em comunidade (o posto de saúde, a escola do filho, o asfalto na rua, a iluminação pública, a rede de esgoto, etc). As eleições locais não serviriam, portanto, para "enviar recados" aos políticos das esferas estadual ou federal. Creio que o provérbio gringo também se aplique ao Brasil.

As eleições municipais do último domingo mobilizaram quase 148 milhões de eleitores, mais de 557 mil candidatos - além de 33 partidos políticos - em 5.567 cidades brasileiras. Mais uma vez, a popularidade dos prefeitos em fim de mandato foi o fator determinante para o voto. Os gestores públicos mal avaliados pelos eleitores foram sistematicamente derrotados: ou não se reelegeram ou não fizeram os seus sucessores. Por outro lado, os prefeitos mais bem avaliados pela população ou já foram reeleitos ou transmitirão o poder para seus herdeiros políticos. Vejamos alguns casos representativos, com base em pesquisas de popularidade realizadas antes da eleição.

Em Porto Alegre, o prefeito Nelson Marchezan Júnior (PSDB) tinha somente 16% de avaliação positiva, contra 50% de avaliação negativa (Ibope, 3 a 5 outubro). Ele sequer disputará o segundo turno, tendo recebido 21,1% dos votos válidos. No Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) é avaliado positivamente por somente 12% dos eleitores, contra 62% de avaliação negativa (Datafolha, 5 e 6 de outubro). Alguma dúvida sobre o que acontecerá com ele no segundo turno?

No outro extremo, temos casos como o de Belo Horizonte. O prefeito Alexandre Kalil (PSD) tinha 70% de avaliação positiva, contra apenas 10% de avaliação negativa (Ibope, 26 a 29 de outubro). Reelegeu-se facilmente no primeiro turno, com 63,4% dos votos válidos. Já em Salvador, o prefeito ACM Neto (DEM) é avaliado positivamente por 73% dos eleitores, e negativamente por somente 3% (Ibope, 28 a 30 de outubro). Não podendo mais ser candidato à reeleição, conseguiu transferir sua popularidade para o seu correligionário de partido, o vice-prefeito Bruno Reis, eleito no primeiro turno com 64,2% dos votos válidos.

As urnas, portanto, recompensaram os gestores bem avaliados pela população, ou seja, aqueles vistos como tendo atendido às demandas por políticas públicas locais de boa qualidade. E puniram os gestores percebidos como incapazes de entregar bons serviços públicos municipais. Esta correlação nada tem a ver com o partido político dos candidatos a prefeito, ou com seus respectivos posicionamentos em relação aos governos estaduais ou ao governo federal.

Mas qual seria o impacto das recentes eleições municipais sobre a conjuntura política brasileira como um todo? Naturalmente, o resultado das urnas nas cidades acaba sendo percebido simbolicamente como uma espécie de "ensaio geral" das próximas eleições para o Congresso Nacional - e para a própria sucessão presidencial.

A esta altura de campeonato, todos já certamente vimos os balanços sobre o desempenho nacional dos diferentes partidos, com destaque para o fortalecimento das siglas de centro e de centro direita. Já vimos também as análises que apontam para o fracasso eleitoral da grande maioria dos candidatos a prefeito e vereador apoiados pelo presidente Bolsonaro (espalhados por diferentes partidos). De fato, sempre que um presidente declara apoio ou pede voto para um candidato posteriormente rejeitado pelos eleitores nas urnas, é impossível não considerar tal fato uma derrota política do presidente.

Mas a questão que realmente importa para o desenho de cenários políticos ao nível nacional é outra. Será que Bolsonaro teria ficado menos competitivo para concorrer à reeleição em 2022 devido ao fato de o bolsonarismo ter sido derrotado em 2020? Algo teria mudado na correlação de forças para a sucessão presidencial? Penso que a resposta é negativa. O bolsonarismo fracassou, mas o presidente Bolsonaro (ainda) não perdeu o seu favoritismo.


O mesmo eleitorado que rejeitou os candidatos bolsonaristas no domingo passado segue, nacionalmente, entregando ao governo Bolsonaro um saldo de popularidade bastante expressivo. A pesquisa CNT/MDA realizada entre 21 e 24 de outubro, por exemplo, revelou uma avaliação positiva do governo de 41,2% dos entrevistados, contra uma avaliação negativa de 27,2%. São números que, na pior das hipóteses, levariam o presidente ao segundo turno com enormes chances de vitória.


Não consigo enxergar um efeito direto das eleições municipais sobre a popularidade do presidente. Se ela vier a subir ou a cair nos próximos meses e anos, certamente terá sido como decorrência de fatores relacionados às conjunturas política, econômica e/ou sanitária do país em seu conjunto. Portanto, muita calma nessa hora. Se as eleições municipais fossem bons preditores da eleição presidencial, Bolsonaro sequer teria sido eleito em 2018.



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