• Vera Galante

BEM-VINDO 2021!


O começo de 2021 não foi muito alvissareiro, mas parece que começa a entrar em um ritmo mais, digamos, normal.


As festas de final de ano, como esperado, trouxeram um aumento vertiginoso do número de infecções e mortes pela COVID-19, mas ao mesmo tempo também tivemos as boas novas das vacinas e a esperança de controle da pandemia. As idas e vindas do governo do Brasil na compra das vacinas atrasaram significativamente o início da vacinação, mas elas vêm.


No plano político, a democracia sofreu um duro teste nos Estados Unidos no dia 6 de janeiro. Ela saiu ferida, mas vitoriosa. As eleições de 3 de novembro de 2020, vencida por Joe Biden e contestada exaustivamente por um presidente que não se conformava com a derrota com afirmativas falsas de fraude – todas sem provas e quase todas rejeitadas pela justiça (inclusive pela Suprema Corte). No dia 6 de janeiro, dia da confirmação final, normalmente protocolar, pelo Congresso americano, Trump, em um discurso inflamado para uma turma também inflamada, incitou um ataque ao Capitólio (fight like hell). O que se seguiu foi algo inimaginável em um país obcecado por segurança – a invasão do Capitólio por uma turba disposta a enforcar o então vice-presidente Mike Pence, assassinar Nancy Pelosi e quem mais aparecesse pela frente. Demorou para as forças de segurança controlarem a situação, que deixou um saldo de 5 mortes. Isso tudo porque Trump, em seu delírio autoritário, acreditou que Pence poderia reverter o resultado da vitória de Joe Biden e lhe dar a vitória ferindo a Constituição (ou, em termos mundanos, no tapetão). Não aconteceu.


Tudo isso rendeu a Trump o impensável até então – foi banido por todas as mídias sociais que usava como megafone para suas teorias da conspiração. E assim assistimos o ocaso de um presidente midiático, intempestivo e populista. Não ficou para a posse de seu sucessor e precisou de organizar sua própria despedida para ele mesmo ver, já que as multidões que antes o acompanhavam, sumiram. Em sua despedida somente a família e alguns poucos assessores (nem o vice presidente compareceu).


Enquanto isso Biden tomou posse em uma cerimônia absolutamente normal e tradicional, seu discurso foi conciliador e sereno. Mesmo assim foi uma posse diferente, pois a pandemia já havia determinado que o público fosse reduzido e os acontecimentos de exatas 2 semanas antes forçaram o emprego de um esquema de segurança extremamente rígido. Com tudo isso, o tom foi de normalidade – conceito que estava em desuso.


Hoje, 21 de janeiro marca o primeiro dia do governo do presidente Joe Biden, que terá que demonstrar muita habilidade para navegar o mar turbulento provocado pelas altas ondas deixadas por seu antecessor e pelo crescimento descontrolado da COVID-19 no país. Biden enfrenta um campo minado pelo recrudescimento do racismo, do sexismo, e do radicalismo ideológico. Sua missão é tentar apaziguar ânimos, inclusive de seus aliados internacionais. Já no dia da posse voltou ao Acordo de Paris, à OMC e cancelou várias ações discriminatórias de Trump (como o banimento de entrada de alguns muçulmanos no país, por exemplo).


O Brasil deveria estar preocupado – já durante a campanha Biden deixou claro que a pauta do meio ambiente será central em seu governo e não dá sinais que o foco mudará. O Brasil está cada dia mais isolado internacionalmente, inclusive com relações estremecidas com a China, no momento em que mais precisa de insumos para a produção de vacinas localmente. O Ministro das Relações Exteriores não tem interlocução com a China e nem com a Índia (outro país que poderia exportar vacina para o Brasil, mas que não vai, pelo menos por enquanto. Mas a culpa é do fuso horário (!), neste caso. Bolsonaro terá que se esforçar muito para ter uma interlocução fluida com o Departamento de Estado sob Tony Blinken (cuja confirmado pelo Senado americano ainda está pendente) – não nos esqueçamos que o Brasil foi o penúltimo país a reconhecer a vitória de Biden, e Bolsonaro afirmou até o último momento que tinha informações que as eleições de lá foram fraudadas. Durante o imbróglio eleitoral o filho 03, o ex quase futuro embaixador do Brasil nos EUA, Deputado Federal por São Paulo e presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, foi recebido por Ivanka Trump e Jared Kushner na Casa Branca para um chá. Pegou muito mal e nada disso passa desapercebido pela nova equipe de governo dos EUA.


Enquanto os EUA parecem entrar em um período de normalidade e previsibilidade, resta a nós brasileiros torcer para que essa normalidade e previsibilidade chegue até aqui também.


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