• Vera Galante

AS ELEIÇÕES AMERICANAS E O BRASIL


As eleições para a presidência dos Estados Unidos terminaram no dia 3 de novembro mas, por causa do intrincado sistema eleitoral de lá, os resultados ainda não são oficiais. Só vão ser quando o Colégio Eleitoral se reunir no dia 14 de dezembro, portanto daqui quase três semanas. Até lá o mundo assiste estarrecido as birras de um presidente que claramente perdeu as eleições contra um sistema sobre o qual ele não tem poder algum (e do qual se beneficiou em 2016 perdeu no voto popular e venceu no Colégio Eleitoral. Foi empossado sem problemas). Assim, assistimos boquiabertos a uma das advogadas da campanha de Trump listar as teorias conspiratórias segundo as quais Hugo Chavez (sim, ele mesmo) estava mancomunado com o governador da Georgia (republicano) e a CIA para roubar as eleições em favor de Biden. Ela não faz mais parte da equipe, mas o que ela disse ainda ressoa. Na mesma coletiva assistimos o derretimento de Giuliani, o herói do 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque, agora vociferava acusações sem comprovação contra um sistema corrupto que existia somente para prejudicar seu patrão. Enquanto isso suava em bicas e a tinta de seus parcos fios de cabelo escorria pelas bochechas. Desde que a vitória de Biden ficou evidente, Trump deixou de governar e o povo ficou sem uma direção segura do governo diante de uma pandemia que cresce exponencialmente.

Enquanto o Presidente Trump insiste em negar o óbvio, a vida segue e Biden, um político experiente e estratégico, já começou a montar seu governo. Começou pelo chefe de gabinete ou, o que equivaleria aqui ao chefe da casa civil, e alguns assessores da presidência. Em seguida optou por montar a equipe de segurança nacional, incluindo aí o Secretário de Estado Anthony Blinken. Todos os escolhidos são veteranos do governo Obama e conhecidos internacionalmente e carregam um recado claro de que os Estados Unidos têm a intenção de “liderar o mundo e não se retirar dele”, como disse Biden ao apresentar a equipe. O presidente eleito também cumpriu a promessa de diversidade: nas primeiras nomeações há duas mulheres, uma delas negra, e um imigrante latino. As nomeações enviam à China, com quem os EUA disputam a hegemonia mundial, um recado claro também: mudam-se os atores e o tom, mas os EUA não abrem mão de serem líderes.

Quase todo o mundo se sentiu aliviado por ter na Casa Branca alguém que valoriza seus aliados, cuja política internacional é previsível. Aliás é a previsibilidade que garante estabilidade internacional. Por isso a maior parte dos líderes mundiais já parabenizou o presidente eleito por sua vitória – alguns imediatamente, outros demoraram um pouco mais, mas até hoje o presidente Putin, da Rússia, Obrador, do México, Kim Jong Un, da Coréia do Norte, Janez Jansa, da Eslovênia e o presidente Bolsonaro, do Brasil ainda não se manifestaram. Até o próprio presidente Trump, de maneira muito truncada, já começa a reconhecer a derrota.

O Brasil perde com essa posição, já que presidentes vão junto com relações pessoais (no caso, unilateral), e os países, e suas relações, continuam. Perde especialmente na área do meio ambiente, assunto que tem colocado o país em evidência internacional negativamente. Biden nomeou John Kerry, ex secretário de estado, seu enviado especial para o clima. Kerry também terá assento no Conselho de Segurança Nacional, o que demonstra a importância que Biden confere ao tema. Depois que deixou o governo, Kerry tem se dedicado a atividades relacionadas ao meio ambiente e sua esposa, Teresa Heinz Kerry é conhecida por sua militância ambiental. Biden já anunciou, desde a campanha, que voltará ao Acordo de Paris no âmbito da a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima. Delineia-se dificuldade ainda maior para o Brasil no meio ambiente. Bolsonaro sempre se alinhou aos posicionamentos de Trump quanto à mudança climática, preservação de matas e florestas e direitos humanos e de indígenas. Os EUA agora terão uma política muito diferente, com prováveis consequências para o Brasil.

Além do meio ambiente, as escolhas de Biden também mostram uma mudança na atuação internacional do país. Linda Thomas-Greenfield, nomeada embaixadora dos EUA nas Nações Unidas disse que “a América está de volta, o multilateralismo está de volta, a diplomacia está de volta” quando aceitou a nomeação. O multilateralismo foi quase inexistente durante a presidência de Trump e também não existe na presidência de Bolsonaro, que dita a política a ser seguida pelo chanceler Ernesto Araújo, que vem mantendo diálogos bilaterais com a Eslovênia, Itália, Ucrânia e Hungria... O Brasil também imita Trump em seu antagonismo à China, especialmente com relação à tecnologia 5G. Nesse assunto, a Casa Branca de Biden deverá mudar o tom, mas não a substância da pressão sobre os aliados para não comprarem da China a tecnologia 5G. É uma disputa pela hegemonia tecnológica e não comercial. Um mundo multilateral implica no fortalecimento das agências multilaterais – ganhará força a ONU, a OMS, a OMC e tantas outras que Brasil desdenhou nos últimos anos. O país terá que reformular sua política externa sob pena de ficar ainda mais isolado no mundo.


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