• Vera Galante

ALIANÇA É DIFERENTE DE AMIZADE, PINCIPALMENTE ENTRE PAÍSES

Muitas vezes somos tentados a achar que aliança é igual a amizade, principalmente quando nos referimos a países cujos relacionamentos remontam a passado longínquo. Também temos que entender que nem sempre a amizade entre líderes não significa alinhamento entre os países. O relacionamento internacional é muito diferente do relacionamento interpessoal. A melhor maneira de explicar, ou tentar explicar, é citando alguns exemplos conhecidos.

Voltemos à década de 1980, quando a disputa pelas Ilhas Malvinas (ou Falkland) entre a Argentina e o Reino Unido – ambos declarando soberania sobre as ilhas. Logo antes da guerra entre os dois países, o Reino Unido solicitou ao Brasil permissão para abastecer navios e aeronaves em território brasileiro. Por causa do grande volume comercial entre o Brasil e o Reino Unido e a rivalidade entre Brasil e Argentina, os ingleses apostavam no alinhamento do Brasil com eles. O Brasil prontamente negou tal proposta, tendo se alinhado com a Argentina por causa da proximidade territorial, e outros interesses que mais tarde culminariam na criação do MERCOSUL. O Brasil também contrariou os EUA que, por razões históricas sempre se alinharam ao Reino Unido. Em todos os fóruns internacionais o Brasil sempre se manteve a favor da Argentina e se colocou à disposição dos países para mediar a disputa, inclusive sendo representante dos interesses argentinos em Londres através da Embaixada do Brasil naquela capital. O domínio das ilhas continua com os britânicos, e o Brasil continua a apoiar a Argentina diplomaticamente. É claro que um fato tão complexo quanto este merece tratamento mais detalhado, mas o que interessa mostrar aqui é como o Brasil escolheu se posicionar em uma disputa internacional.

Em nossos dias vimos o Brasil se alinhar quase que incondicionalmente com os Estados Unidos. Muito se deveu à admiração que o Presidente Bolsonaro e o então chanceler, Ernesto Araújo, tinham pelo ex-presidente Donald Trump. O primeiro engano foi o de considerar que a recíproca era verdadeira. Trump nunca demonstrou amizade por Bolsonaro ou Araújo, e nem pelos filhos de Bolsonaro. Em sua visita oficial aos Estados Unidos, Bolsonaro e Araújo fizeram concessões aos pedidos dos EUA de começar a renunciar ao tratamento diferenciado dado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) aos países em desenvolvimento em troca de apoio dos EUA à entrada do país na OCDE – o chamado clube dos países ricos. Logo em seguida os EUA indicaram a Argentina para se juntar ao clube e não o Brasil. A suposta amizade entre os líderes não rendeu os frutos esperados, simplesmente porque os países e seus interesses estão acima de relações pessoais.

Outro exemplo do passado foi a amizade inesperada entre o ex-presidente George W. Bush e o ex-presidente Lula. Pessoalmente se davam muito bem, mas os países tinham mais contenciosos do que convergência naquela época. Entretanto, era um parceiro estratégico dos EUA nas conversações com a Venezuela e outros países da América Latina. Os contenciosos não poderiam interferir no importante papel que o Brasil exercia naquela época (mas, infelizmente deixou de desempenhar). Da mesma forma Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton criaram uma amizade que dura até os dias de hoje, mas não se traduziu em alinhamento automático entre os países.

Hoje o presidente dos Estados Unidos é Joe Biden e o mandato de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil dura até pelo menos o final de 2022. Os reflexos da mudança do presidente dos EUA foram sentidos internamente pelo país, e internacionalmente. Biden deu passos importantes para voltar ao multilateralismo desprezado por seu antecessor, e nisso já mandou recados claros ao Brasil na área dos direitos humanos, meio ambiente, China (aqui houve pouca ou nenhuma mudança nas políticas de seu antecessor) e outras áreas também. O Brasil já recebeu importantes personalidades do governo dos EUA, a mais recente a do Diretor da CIA, William Burns. Uma visita dessas só ocorre para estreitar conversas sobre troca de inteligência entre os países nas áreas criminais e sobre movimentações de grupos “fora da lei” em outros países vizinhos. As conversas também incluíram, certamente, o leilão do 5G – e o interesse dos EUA de ver a China banida de operar no Brasil como detentora desse importante mercado. O Brasil balança entre os interesses comerciais que tem com a China, grande importador de produtos brasileiros e exportador para o Brasil de insumos para vacinas e outros produtos, e o alinhamento com os EUA. Até pouco tempo era possível prever sem medo de errar que o alinhamento com os EUA falaria mais alto, mas agora não mais. Ernesto Araújo e os filhos do presidente (especialmente Eduardo Bolsonaro) saíram de cena. Agora o moderado e discreto chanceler Carlos Alberto França é o chefe do Itamaraty – e ele nem estava no Brasil na época da visita de Burns. Os EUA também substituirão o Embaixador no Brasil, já que o embaixador Todd Chapman deve deixar o posto em breve pois vai se aposentar.

A interlocução entre o Brasil e os EUA mudará – novo chanceler e novo embaixador no Brasil – e deverão ficar mais claras, tratando de interesses somente, como deve ser entre países. Se houver amizade entre os líderes, melhor. Se não, as relações podem seguir sólidas e proveitosas para ambos.


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