• Vera Galante

A AMÉRICA ESTÁ DE VOLTA

Recentemente acompanhamos as reuniões do G7 em Cornwall, no Reino Unido, da Otan em Bruxelas, na Bélgica, e a reunião de Biden e Putin em Genebra, na Suiça. Foi a primeira viagem internacional do presidente dos EUA, e que serviu para dar a conhecer ao mundo a postura de Biden e de sua política externa.


A comparação com seu antecessor é inevitável, pois todos lembramos os embates que ele promovia em todas as reuniões, a ponto de Angela Merkel ser flagrada falando com ele com o dedo em riste. As reuniões com a OTAN eram sempre em tom ameaçador – cobrando alguma conta que não era real, ou ameaçando de se retirar do tratado. O tom das reuniões com o Presidente Putin era de quase subserviência – Putin tinha mais credibilidade com Trump que o seu próprio serviço de inteligência.


A viagem de Biden envolveu exatamente os mesmos “personagens” descritos rapidamente acima. Uma das primeiras conquistas de Biden em todas as reuniões foi a de mostrar que com ele seria diferente, e que o Presidente dos Estados Unidos e a Política Externa dos Estados Unidos falavam a mesma língua. Durante os 3 dias de reuniões entre as 7 potências econômicas do mundo (Alemanha, Canadá, Estados Unidos da América, Reino Unido, Japão, Itália e França) e mais os países convidados: Austrália, Índia, Coréia do Sul e África do Sul. A primeira parada de Biden foi em Londres para uma reunião de cortesia com o anfitrião Boris Johnson, primeiro-ministro, com quem teve uma reunião animadora, e de onde ambos saíram satisfeitos. Sabe-se que Biden e Johnson discordam em quase tudo, mas acharam pontos de convergência. Em seguida todos os 10 líderes mais os representantes da União Europeia foram para Cornwall para o início dos trabalhos. Biden participou de todas as reuniões e ouviu na mesma proporção em que falou. Ele tinha uma agenda, e foi capaz de convencer os demais membros (sem ameaças ou cobranças) que sua agenda era boa. O final da reunião mostrou rara unanimidade e sincronia entre os líderes reunidos. Para chegar a esse resultado, Biden já havia feito acenos de que estava de volta ao cenário mundial como ator importante – logo nos primeiros dias de seu governo retornou ao Acordo de Paris sobre o Clima, de onde Trump havia estrondosamente saído, e à OMS de quem Trump, também ruidosamente, discordava e, por isso também se retirou. Estes gestos ajudaram a criar um ambiente favorável à sua participação.


Sabe-se que esses encontro entre líderes são quase pró-forma. As verdadeiras negociações acontecem antes da do encontro final e envolvem diplomatas de todos os países debatendo por longas horas até chegarem a um documento que satisfaça a todos. A reunião final serve para sacramentar o que já foi discutido e para discutirem um ponto ou outro que pode não ter ficado muito claro, ou sobre o qual houve alguma mudança de posição. Durante os tempos de Trump, os diplomatas negociavam uma coisa, e ele fazia outra completamente fora do script. O Presidente e a Política Externa falavam línguas diferentes.


O ambiente gerado por Biden não foi diferente na reunião da OTAN, logo em seguida. A mensagem principal era que os EUA valorizavam o Tratado, era participante dele em pé de igualdade com os demais e, se houve cobrança de alguma dívida, ela foi feita antes da reunião ou atrás de portas fechadas. O público não tomou conhecimento.

Por fim chegou a tão esperada reunião com Putin, na Suiça. Houve todo tipo de especulação a respeito. Biden não fez segredo algum de que se preparou bem para a reunião: chamou todos os especialistas em Rússia disponíveis, inclusive alguns ex conselheiros de Trump. Ele os ouviu e foi se encontrar com Putin. As relações entre Rússia e EUA estavam no ponto mais baixo desde o final da Guerra Fria. Biden anunciou suas reinvindicações ainda antes da reunião – fim dos ataques cibernéticos, fim das interferências nas eleições dos EUA, expulsão de diplomatas por ambos os países e outros assuntos igualmente sensíveis. Putin não anunciou nada, bem ao seu estilo.


A reunião ocorreu e somente algumas poucas pessoas podem dizer exatamente o que transcorreu. As coletivas de imprensa foram separadas, mas ambos a descreveram como respeitosa e produtiva. O comunicado conjunto foi um pouco mais explícito, mas não muito. Anunciou que aprofundariam discussões sobre segurança cibernética e troca de prisioneiros, que os diplomatas seriam reconduzidos aos seus postos de onde tinham sido chamados para “consultas” por ambos os países, intenção de impedir uma guerra nuclear, diálogos sobre estabilidade estratégica como precursora para futuras conversas sobre desarmamento, mas não escondeu que ainda havia divergências.


Biden voltou para casa bradando que a “América está de volta”. De fato, os EUA voltaram ao cenário internacional como mestres em usar o poder brando para atingirem seus objetivos. Biden não hesitou em mostrar a força que os EUA ainda detêm no mundo, mas o fez elegantemente, sem despertar a antipatia e antagonismo quase automático que seu antecessor gostava de gerar.


Como disse anteriormente, a confiança nos diplomatas e na competência que têm para fazer avançar os interesses do país que representam em uma reunião multilateral e conseguir que divergências sejam superadas, consegue fazer com que a congregação dos líderes possa transmitir a coesão e a sintonia que todas as reuniões das quais Biden participou fossem bem-sucedidas.


Essa é uma lição que serve para o Brasil. No passado sempre agimos assim e éramos conhecidos (e temidos) pelo uso muito eficiente do poder brando para obter nosso objetivo. O efeito Trump chegou aqui e agora não temos mais nenhum poder de barganha no ambiente internacional, onde estamos quase totalmente isolados.


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