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  • Luís Henrique Pedroso

SERÁ O BRASIL "CANCELADO"NO SISTEMA INTERNACIONAL?


Será o Brasil “cancelado” no Sistema Internacional?


Nos últimos anos a expressão “cancelado” vem se tornando muito popular, especialmente nas redes sociais. Em linhas gerais, quando alguém ou alguma marca adota uma postura ou exprime uma opinião considerada inadequada pelo público, o “troco” vem na forma de “cancelamento”. Em nosso cotidiano é o que fazemos ao bloquear ou deixar de seguir aquele amigo da escola que publicou #ForaBolsonaro, #FechadoComBolsolnaro, #LulaLivre ou #LulaLadrao escancarando nossas diferenças. Ou, ainda, é o boicote promovido pelos consumidores/seguidores que discordam do posicionamento, do discurso ou da ação de determinada celebridade. Um exemplo, o restaurante Madero foi “cancelado” no início da crise de coronavírus porque o empresário Júnior Durski, dono, declarou que a economia não podia parar porque morreriam umas 6-7mil pessoas. Os efeitos práticos dos “cancelamentos” vistos até aqui são, entre outros, a experiência de viver em uma bolha digital apenas com aqueles que pensam igual a mim e, no caso dos famosos e marcas, diminuição de suas receitas pela diminuição no consumo dos seus serviços e produtos. Minha proposta é, a partir de agora, extrapolarmos um pouco e refletirmos sobre o Brasil no Sistema Internacional. Corremos o risco de sermos “cancelados”?


Acredito que sim. E se não alterarmos o rumo da nossa política externa e algumas de nossas políticas internas, esse risco seguirá aumentando. Internacionalmente o Brasil não vive um bom momento, independente do que o governo ou seus apoiadores aleguem. E esse mau momento não teve início com o Presidente Bolsonaro, pelo contrário. Já em 2016 o Brasil aparecia na lista dos dez maiores riscos para o cenário internacional do Grupo Eurasia. Muito pela crise política interna do segundo mandato da Presidente Dilma Rousseff, e que levou ao seu impedimento, e incapacidade do governo de promover reformas estruturais necessárias para evitar uma recessão econômica. No entanto, não há como negar que desde sua posse (ou antes!), o Presidente Jair Bolsonaro, o Ministro Ernesto Araújo, outros tantos Ministros e os filhos 01, 02 e 03 contribuem paulatinamente para um “cancelamento” do Brasil por importantes players internacionais. Exemplos que sustentem essa afirmação não faltam. Porém, o maior risco de “cancelamento” está na área ambiental e os avisos estão sendo dados.


Na última semana o INPE - aquele mesmo cujo diretor foi demitido em 2019 e cujos dados e pesquisas foram questionados pelo Ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) e atribuídos como “manipulados” pelo Ministro Augusto Heleno (GSI) - divulgou que junho deste ano foi registrado o maior índice de queimadas desde 2007. Segundo especialistas, o recorde coincide com aumento no desmatamento, que também atingiu maior número desde 2015 para o período. O recente pedido de afastamento de Ricardo Salles do cargo por improbidade administrativa, feito pelo Ministério Público Federal, se dá, justamente, dias após sabermos dos novos recordes negativos. Não é surpresa, no entanto. O desmonte do Ministério, do IBAMA e de outros órgãos de fiscalização, junto com políticas públicas controversas, para dizer o mínimo, e as falas constrangedoras de Salles apontavam para um desfecho como esse, de pré-“cancelamento”. E aqui um alento para nós, brasileiros. Remando contra a maré, estados e municípios afinam suas habilidades para atuarem internacionalmente de forma mais independente do Itamaraty. E mais, alguns estados, como o Mato Grosso, vão garantindo excelentes resultados para manutenção e arrecadação de investimento internacional em virtude de bons resultados na conservação de florestas e áreas de preservação, bem como regulação do desmate legal. Com os Ministérios do Meio Ambiente e Relações Exteriores sendo “cancelados” externa e internamente, organismos e fundos internacionais deslocam recursos e atenção para a paradiplomacia. Alento em tempos difíceis.


Para além da Amazônia, outros pontos também merecem destaque: o aumento no número de pesticidas autorizados pelo governo para uso no agronegócio, o Projeto de Lei 2633, chamado de “PL da grilagem” e a crise sanitária de covid-19. Sobre o primeiro, ainda em 2019 uma série de produtos de origem brasileira foram “cancelados” das prateleiras de algumas redes na Suécia, por exemplo. Esse receio ganha novo destaque agora em virtude do expressivo número de casos de coronavírus no Brasil que, inclusive, acarretou na suspensão das importações de carnes de alguns frigoríficos para a China. Nesta seara, incluo o PL 2633, constantemente citada por grupos e associações empresariais estrangeiras – da Europa e dos Estados Unidos, principalmente - e governos. Os movimentos contra o PL 2633 no Reino Unido, Alemanha e Suécia, por exemplo, crescem e ganham fôlego ao passo que relembramos a moratória da soja de 2006 como ação de boicote à soja de regiões de desmatamento. “Cancelaram” a soja brasileira em um passado recente, a ameaça de “cancelamento” agora é maior e envolve até mesmo o celebrado acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul.


Sentindo a pressão internacional aumentando, semana passada o Presidente Bolsonaro afirmou em reunião dos chefes dos países do Mercosul que irá desfazer opiniões distorcidas sobre o Brasil e expor a preservação que já é feita. É pouco, muito pouco. Os dados do INPE falam mais alto e abastecem o crescente discurso de “cancelamento” do Brasil que se torna popular na Europa. Veja bem, é politicamente lucrativo ser contra um regime que atenta – mesmo que narrativamente – contra valores da democracia liberal, que flerta com autoritarismos, que questiona o multilateralismo e ainda por cima falha na preservação ambiental e em assegurar o direito de minorias. A negativa do parlamento holandês em referendar o acordo comercial entre UE e o Mercosul é evidente demonstração do posicionamento contrário às atuais políticas (não só ambientais) brasileiras, assim como são as declarações de Emmanuel Macron semana passada sobre frear as negociações do acordo. As pressões internacionais estão vindo de todos os lados, desde o Parlamento Europeu via Congresso brasileiro até fundos internacionais que administram cerca de R$21 trilhões (sim, tri) que agora ameaçam retirar investimentos do Brasil. A Europa se posiciona cada vez mais abertamente em favor de “cancelar” o Brasil e os argumentos, falaciosos ou não, se aproximam cada vez mais das questões ambientais. E daí, Jair?


Alô, Mourão! A atuação do Vice-Presidente Hamilton Mourão como interlocutor para questões ambientais cresce na medida que o risco de “cancelamento” cresce. O esvaziamento do poder do Ministro do Meio Ambiente é evidente, inclusive com a Ministra Tereza Cristina, da Agricultora, se posicionando cada vez mais forte e coerente em relação a questões ambientais do que o próprio “Rei do Gado” Ricardo Salles. Mourão planeja uma série de medidas para fortalecer a imagem do Brasil internacionalmente, com especial atenção ao meio ambiente. Precisará coordenar tais ações com os Ministérios das Relações Exteriores, Meio Ambiente e Comunicações, além de, é claro, com o Presidente e seu clã. Não é uma missão fácil, especialmente porque se lembrarmos de que o “boom” das queimadas na Amazônia foi em agosto do ano passado, esse junho foi bem pior e julho já começou mal. E não tínhamos pandemia. Para evitar um “cancelamento”, o Brasil precisa agir, e rápido. Nossa imagem está desgastada internacionalmente, não desejamos ser “cancelados” e virar um pária internacional e um caminho para amenizar ou reverter essa tendência é investirmos em melhorias nas nossas políticas ambientais.





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