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  • Luís Henrique Pedroso

REPRESENTATIVIDADE, A CRISE (DA VEZ)


Em 2013, milhões de brasileiros foram às ruas e deixaram uma mensagem que, hoje, cinco anos depois, percebemos não ter sido ouvida: o que está aí não me representa, precisamos mudar alguma coisa. Não eram vinte centavos, bradávamos todos nas ruas. Tampouco eram reivindicações exclusivamente políticas naquela Jornada de caráter horizontal e que abrigava todas tribos. Eram reinvindicações e sentimentos de frustação dos mais diversos campos políticos, sociais e econômicos. Uns levavam cartazes escritos “Mais Saúde, Menos Copa”, outros eram “Tarifa Zero”, mas também frases de ordem e gritos contra homofobia, repreensão policial, educação e até contra a PEC 37. Tínhamos verde, amarelo, vermelho, roxo, preto e máscaras. Ouvimos muitas vezes o hino nacional e orgulhosamente aplaudimos as inúmeras faixas que afirmavam que o povo unido não precisava de um partido. Por óbvio, afinal, quem se sente representado por um partido político?


Um ano se passou e logo muito mudou. Havia, então, de maneira dicotômica e maniqueísta

coxinhas de um lado e petralhas de outro. Ouvimos gritos de que não teríamos Copa do Mundo e, antes não tivesse mesmo, assim não teríamos chorado com os 7x1. Vimos black blocs assustarem a todos e começamos a perceber o potencial de violência e desordem incitados pela desilusão com a política, frustração com os políticos e liberdade encontrada nas redes sociais. 2015 e 2016 chegaram, com ele o descontrole e as máscaras no mundo digital logo tomaram as ruas e, é claro, caíram no que se refere às contas do governo federal. Ops! Impeachment. Mas não antes de ouvirmos dezenas de panelaços em todos cantos do Brasil. E o que o som daquelas panelas batendo nos dizia? Crise! Forte rejeição à política por eleitores não-políticos e descrentes da política, dos políticos e dos partidos. A corrupção agravou esse julgamento e o eleitor não encontrava representação dos seus anseios em ninguém e em nenhuma das estruturas cortesãs registradas no Tribunal Superior Eleitoral como partidos políticos.

O atual sistema eleitoral brasileiro está falido e precisa urgentemente de reformas. Grandes reformas! A falta de representatividade é evidente. Certamente quem bateu panela não se sentia representado pelo PSDB ou MDB (muito menos pelo PT!), basta observar as inexpressivas votações de Geraldo Alckmin e Henrique Meireles no último pleito. Isso sem contar os incessantes #ForaTemer desde 2016. E isso se dá, em grande parte, pela falta de ideologia e programação partidária dos trinta e cinco partidos políticos brasileiros. E estes corpos políticos intermediários, ou como define o cientista social Simon Schwartzman, “organizações de conveniência”, não respeitam ou se aproximam daqueles que supostamente deveriam representar, o povo. Eles representam os interesses do seus líderes e suas conveniências. E talvez neste ponto resida uma das principais causas desta crise de representatividade: democracia e representação como conhecemos pós-Revolução Francesa formam uma aliança inconveniente. Aliança essa que está, evidentemente, defasada em relação ao mundo contemporâneo.


Há uma corrosão da política e uma repulsa generalizada à política partidária-institucional. Precisamos rever a relação entre cidadania e democracia representativa onde o cidadão-consumidor exige respostas rápidas do Estado e de forma ética. Há uma urgente demanda por reformas institucionais, culturais e jurídicas para atender os anseios da sociedade que vota em palhaço como forma de protesto e acaba por colocar, pelo voto de legenda, quem ele nem conhece para o poder legislativo. E ainda há um cuidado com a judicialização da política e com a violência decorrente de inflamados discursos antagônicos imersos em um momento de crise de representatividade na qual quase 30%[1] da população brasileira apta a votar se absteve, votou nulo ou branco no dia 7 de outubro de 2018 para a escolha do próximo presidente nacional.





[1] TOTAL: 117.364.560 VÁLIDOS: 107.050.673 (91,21%) BRANCOS: 3.106.936 (2,65%) NULOS: 7.206.205 (6,14%) ABSTENÇÕES: 29.941.265 (20,33%). Disponível em: http://divulgacandcontas.tse.jus.br (Acesso: 22 de outubro 2018).


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