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  • Vera Galante

VOCÊ JÁ SABE EM QUEM VOLTARÁ?


As pesquisas eleitorais, como já abordamos em vídeo, são publicadas periodicamente e ajudam a dar um perfil do que está acontecendo no Brasil. O Datafolha[1] recém-publicou sua pesquisa de intenção de votos, o que nos provoca a pensar sobre o número de pessoas que não querem ou não sabem em quem votar. Esse número é assustador.


O Brasil, segundo o IBGE, tem uma população de aproximadamente 209 milhões (dia 25/6/2018). Não se sabe ao certo quantos são efetivamente eleitores, por causa da idade.[2] Em 2014, o número de eleitores foi de um pouco mais de 142 milhões, o que representou um aumento de uns 6% sobre o número de eleitores em 2010. Para efeito de argumentação, se aplicarmos a mesma porcentagem de crescimento para 2018, teremos um pouco mais de 151,39 milhões de eleitores (lembrando que o voto é obrigatório, portanto quase todos devem comparecer às urnas ou justificar a ausência).


Todos nós temos acompanhado as preferências do eleitorado pela mídia e pelas declarações dos próprios pré-candidatos. Há que se lembrar, porém, que ainda não sabemos ao certo quem serão os candidatos, já que suas candidaturas só serão registradas em agosto, depois das convenções partidárias. O que nos causa certo alarme é o alto número daqueles que dizem que votarão branco/nulo ou nenhum. A pesquisa espontânea do Datafolha aponta que 46% dos eleitores ainda não sabem em quem votar e que 23% dos eleitores dizem que votarão em branco, nulo ou nenhum candidato.


Para ter ideia da magnitude dos números, cerca de 70 milhões de pessoas não sabem em quem votar e quase 35 milhões de pessoas dizem que, se as eleições fossem hoje, votariam branco, nulo ou em nenhum candidato. Em comparação, o número de pessoas que se recusariam a escolher um candidato, registrando branco, nulo ou nenhum, é maior do que a soma das populações dos estados de Minas Gerais e Pernambuco (21,2 e 9,5 milhões de pessoas, respectivamente). O número de pessoas que não sabem em quem votar é maior do que a população dos estados de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Distrito Federal, somados.


Estes são números aproximados, mas mesmo assim nos levam a refletir que mais da metade da população brasileira (69%) não está satisfeita com o cenário eleitoral que se apresenta. Não há diferença entre votos brancos e nulos, para efeito da eleição, já que somente os votos válidos são computados: a preferência em anular o voto ou votar em branco é do eleitor.


No cenário acima, aproximadamente 72 milhões de pessoas ainda não definiram seus votos. As campanhas devem focar seus esforços nesses eleitores que não querem ou não sabem em quem votar, dentre os pré-candidatos que já se apresentaram. É claro que esse número tenderá a diminuir, à medida que os partidos escolham seus candidatos e que o quadro eleitoral se defina melhor. Será importante acompanhar a evolução das preferências desses eleitores, usando a pesquisa do Datafolha como base.


Em pesquisas estimuladas, no único cenário em que Lula participa, o índice de votos brancos, nulos, nenhum ou não sabe é de 17e 4 respectivamente. Nos outros cenários em que ele não aparece, o número cresce: 28/5, 28/5 e 28/6 [?], donde podemos concluir que os que não têm a oportunidade de votar em Lula ficam mais inseguros quanto ao voto. Ainda há um grande número de eleitores que se sentem mais seguros com o PT no poder. É esse eleitorado que candidatos mais à esquerda, como Ciro Gomes e outros menores, querem atrair. Mas Lula também tem a maior rejeição, se comparado com os atuais pré-candidatos: 36% (Fernando Collor retirou sua pré-candidatura e era o que tinha maior rejeição). Relativamente poucos eleitores rejeitam todos/não votariam em nenhum ou votariam em qualquer um ou não sabem: 6%, 3%, 4%, respectivamente.]


Já nas pesquisas estimuladas de intenção de votos para presidente no segundo turno, nos 3 cenários em que Lula aparece (Lula X Alkmin, Lula X Marina e Lula X Bolsonaro), as porcentagens de votos brancos/nulos/nenhum são 22%, 21% e 17% – e só diminuem quando a disputa é contra o Candidato Jair Bolsonaro. Nos três casos, os que não sabem em quem votariam representam somente 1%. Vê-se que ambos os candidatos têm eleitores bem definidos entre um e outro. Nos cenários em que Lula não aparece, o índice de quem votará branco/nulo ou nenhum aumenta, ficando na média de 35%, e o número dos que não sabem em quem votar também sobe um pouco e fica em média em 3%.


Há um número enorme de eleitores que ainda precisam de ser convencidos a votar em algum candidato. Os candidatos, por sua vez, precisam descobrir o que atrairá os eleitores. Os cenários em que Lula está presente tendem a não se concretizar, já que ele está inelegível por ter sido condenado em segunda instância, mas servem para mostrar que os dois extremos – esquerda e direita – ainda conseguem atrair grande número de eleitores. Lula venceria com certa folga seus oponentes Geraldo Alckmin (PSDB), Marina (Rede) e Bolsonaro (PSL). Tirando a esquerda mais radical representada pelo PT[3], o cenário fica muito menos previsível quando ainda sobram outros candidatos mais ao centro. Jair Bolsonaro, por esta pesquisa, perderia para Marina Silva e empataria tecnicamente com Alckmin e Ciro Gomes (PDT), mas ganharia de Fernando Haddad (PT)[4].


Fica evidente que há um número enorme de eleitores que, potencialmente, ainda podem ser convencidos a votar em algum candidato. Mas o que falta? Programa? Talvez, mas o eleitor comum nunca lê programa de governo. No caso brasileiro, a vitrine dos candidatos é seu passado e seu time econômico. Nesse quesito, Jair Bolsonaro é o que tem o economista mais improvável – Paulo Guedes, um liberal e será interessante ver se Bolsonaro conseguirá ter um discurso economicamente liberal que seja convincente. Geraldo Alckmin e Marina Silva têm times muito competentes elaborando seus programas de governo e devem fazer propostas interessantes. Ambas as campanhas contam com economistas conhecidos por suas competentes atuações no passado. Ciro Gomes tem um time fraco de assessores e ele se atribui mais conhecimento econômico do que realmente tem (foi ministro da Fazenda por menos de 4 meses em 1994).


Fala-se muito que o eleitor brasileiro quer mudar o status quo e rejeita políticos experientes, mas todos os potenciais candidatos são, de uma forma ou de outra muito experimentados. Lula foi deputado constituinte e presidente da República. Jair Bolsonaro é deputado federal há 27 anos e conhece muito bem os meandros das negociações entre Legislativo e Executivo. Geraldo Alckmin já foi vice-governador de São Paulo e governador daquele estado quatro vezes não consecutivas. Ciro Gomes já foi ministro e governador do Ceará. Marina Silva já foi senadora e ministra. Fernando Haddad já foi ministro e prefeito da cidade de São Paulo. Todos são conhecidos por seus feitos e fracassos à frente do poder público.


O desafio agora é descobrir o que fará qualquer um deles ganhar as eleições de outubro. Candidatos conhecidos por defenderem um único tema podem ter maior apelo popular, mas sua vulnerabilidade ficará exposta quando começarem os debates, momento que tenderá a beneficiar aqueles que compreendem o que é ser presidente de uma República tão complexa quanto o Brasil. A nós resta observar e decidir em quem votar.



[1] A pesquisa do DataFolha pode ser encontrada aqui: http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2018/04/1965039-preso-lula-mantem-lideranca-em-disputa-pela-presidencia.shtml

[2] A população é atualizada diariamente aqui: https://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/box_popclock.php

[3] Há ainda que se esperar para ver o que o PT fará quando, como se espera, Lula for declarado inelegível pelo TSE. Quase certamente lançará candidato próprio, sendo mais provável que lance Fernando Haddad, que não empolga o eleitor brasileiro, pois não saiu muito bem da prefeitura de São Paulo.

[4] Ressalve-se que Haddad não é pré-candidato ainda.


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